Os negros, Obama e Martin Luther King

1 04 2008

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Eu tenho um sonhoMartin Luther King

Traidores de sua própria raçaMagneto no filme X-men 3, conflito final

Em 1963 Martin Luther King escreveu um discurso que se tornou famoso e se tornou, de determinada forma, a representação do combate do movimento negro. Claro está que King escrevia este discurso no começo de um movimento que ainda não tinha atingido o seu auge, que preparava a revolução de 1968 que varreu o mundo inteiro. Havia uma disputa interna no movimento negro, Malcon X aparecia no mundo e o partido dos Panteras Negras começava a se gestar. E King discursava contra a violência, não so a violência do estado contra os negros, dos racistas contra os negros, mas a própria violência da auto-defesa que os Panteras Negras viriam consagrar.

Para podermos entender o que Obama hoje propõe e como o que ele propõe é algo muito diferente do que falava King, pegamos aqui alguns trechos do discurso de King e depois do discurso de Obama para que todos possam verificar estas diferenças. O discurso de King pode ser encontrada em http://www.dhnet.org.br/desejos/sonhos/dream.htm.

O discurso de Obama pode ser encontrado no site

http://www.boston.com/news/politics/politicalintelligence/2008/03/obama_calls_for.html.

King começa o seu discurso explicando a situação dos negros, situação que não se modificou muito hoje, basta ver os resultados do furacao Katrina, que deixou desabrigados ou moradores em trailer majoritariamente negros ou o fato da policia ter sido autorizada por uma secretaria (negra) da justiça a utilizar critérios raciais na investigação policial:

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros. Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.

Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra.

É uma verdade que até hoje se mantem. Mais de um terço dos homens negros entre 20 e 30 anos encontra-se na cadeia. Os bairros negros tem escolas e hospitais piores que os outros. A política de cotas só levou a que alguns privilegiados – como Condolezza Rice e o general Colin Power – ascendessem, enquanto a grande maioria continua no mesmo estado de miséria. King alertava para esta situação ainda em 1963 (e já fazem 45 anos) e explicava:

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

King foi assassinado em 04 de abril de 1968, 5 anos depois de seu famoso discurso. Este anos fará 40 anos do seu assassinato e o “gradualismo” que ele criticava tornou-se a política dominante. Após o assassinato de King o FBI organizou, junto com a Máfia, o desmonte do partido dos Panteras Negras (que eram rivais políticos de King). Em outras palavras, as duas ações foram feitas com o objetivo de destruir o ativismo e o movimento negro que se organizou durante o movimento pelos direitos civis dos negros, movimento que se iniciou em 1955 e ampliou-se com a resistencia a guerra do Vietnã e atingiu o seu auge na revolução de 1968 que varreu o mundo inteiro (voltaremos a esta revolução, a greve geral da França, a revolução na Tchecolosvaquia e a passeata dos 100 mil no Brasil).40 anos depois…o que temos? Temos as Condolezza e os Collin Power, temos Barak Obama. E os negros continuam, apesar de todas as políticas “gradualistas” das chamadas cotas raciais, política que foi inventada e disseminada nos EUA e no mundo pela Fundação Ford que paga pesquisadores, universidades, institutos de pesquisa e unversidades para defender as cotas. Conseguiram? Conseguiram fazer alguns pequenos e médios burgueses, burocratas que se sobressaem. Mas a grande maioria continuou como sempre, na miséria e na segregação.

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E agora, o que propõe Barak Obama? Leiamos as suas propostas e vejamos que ele exatamente está querendo “descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo

”:Esse foi um dos objetivos estabelecidos no início desta campanha – continuar a longa marcha daqueles que vieram antes de nós, a marcha pelos Estados Unidos mais justos, mais iguais, mais livres, mais acolhedores e mais prósperos

Sim, continuar a longa marcha e enquanto isso os negros morrem como soldados rasos nas guerras do Afagenistao e do Iraque, morrem a cada dia na miséria que o furacao Katrina mostrou, morrem a cada dia nas prisões onde a maioria de presos é de negros. E Obama, que é esperto, propõe-se a imediata retirada das tropas e repisa isso a cada minuto, inclusive neste discurso:

Dessa vez queremos falar sobre os homens e as mulheres de todas as cores e credos que servem juntos, que lutam juntos, que sangram juntos sob a mesma bandeira orgulhosa. Queremos falar sobre como trazê-los de volta para casa de uma guerra que nunca deveria ter sido autorizada, que nunca deveria ter sido lutada; queremos falar sobre como demonstrar patriotismo cuidando deles e de suas famílias, dando a eles os benefícios que conquistaram.

Esta é a força de sua candidatura, que pega uma questão que a maioria dos trabalhadores e jovens americanos rejeitam, a guerra do Iraque, e baseada nesta situação ele pode falar o que quiser, da forma que quiser, apelando inclusive para o velho nacionalismo ianque. Não é atoa que a sua plataforma propõe aumentar o numero de efetivos do Exercito, dos fuzileiros, que aumente as verbas para as forças armadas em todos os seus aspectos, que se aumente a verba para o FBI, para a segurança das fronteiras.

Agora, Obama se propõe a fazer um discurso no dia da morte de King. Poderíamos esperar algo novo? Não parece ser este o caso. Obama quer ignorar a questão central do racismo nos EUA: a miséria em que vive a maioria negra.

É verdade que a implantação da cotas raciais serviram para produzir uma “elite negra”, uma Condolezza Rice e um Colin Power. Mas a grande maioria vive e morre nos trailer e nos bairros negros, a grande maioria sofre a discriminação que o pastor de Obama denunciou recentemente, a grande maioria ainda espera para acha que “ Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo”King quando escreveu o seu discurso pedia que os negros tivessem calma e não se deixassem levar pelo radicalismo, pela violência. Mas King, por mais “pacifico” que fosse não pedia aos negros para esperar mais 100 anos.

E hoje, 45 anos depois do seu discurso, quantos anos ainda os Obama da vida querem que os negros esperem para serem iguais?

Os ventos da crise

A crise econômica atinge os EUA e o mundo. Mas, como em toda crise, se perdem os ricos, se eles choram seus bilhões perdidos, perdem mais os pobres que não perderam bilhões mas estão perdendo suas casas a cada dia que tanto sacrifício fizeram para comprar. E a crise atinge mais os mais pobres e nos EUA, mais pobre é sinônimo de negro. Enquanto aqui em favelas temos brancos e negros, nos EUA a maioria das favelas é de negros. Os negros são minoria, mas são maioria nas prisões.

A grande nação americana se construiu em cima dos cadáveres do índios que mortos foram e a maioria mortos estão e em cima do trabalho escravo e depois da libertação dos escravos em cima do trabalho mal pago dos negros. E quando acontece uma catástrofe se vê até na TV: no desastre do furacao Katrina, em Nova Orleans, o que sobraram para traz foram justamente os negros. E quando voltaram e não tiveram dinheiro para reconstruir suas casas, os bairros que não foram reconstruídos, foram justamente as casas e os bairros dos negros. E agora Obama vem dizer que existe um problema racial e que isso vai ser resolvido em uma “longa marcha”. Quanto tempo mais até que esta longa marcha chegue em um lugar onde todos possam viver juntos, com os mesmos direitos e as mesmas condições?

Os EUA produziram e produzem a maior parte da riqueza do mundo. O seu capitalismo produziu riquezas e maravilhas que nunca o mundo tinha visto antes. E também produziram miséria, morte e destruição que nunca o mundo viu antes. E cada vez mais o seu caminho e o caminho da desigualdade. Afinal, que tem de comum o negro que perdeu sua casa no desastre do furacao Katrina, o operário que perde sua casa porque perdeu o emprego e não pode pagar o financiamento e o Bill Gates que constrói uma mansão com mais de 250 quartos?Só uma coisa: todos são resultado da mesma exploração capitalista. So que um explora os outros dois, na verdade explora milhares como estes outros dois e constrói sua casa de 250 quartos enquanto que os outros dois são explorados.

Sim, nos queremos a união dos brancos pobres e dos negros pobres. Mas antes de tudo queremos a união dos pobres. Porque dos negros ricos, das Condolezza e dos Colin nada podem esperar os negros. Dos negros que agora estão ficando rico como Obama, que consegue comprar uma casa do seu financiador de campanha por um preço, digamos, “camarada” nada podem esperar os brancos e pobres negros. O discurso de que todos estamos no mesmo barco, patrões e empregados sempre se volta contra os pobres.

O cineasta que fez o filme x-mem 3 fez uma metáfora genial na luta de mutantes (os negros) contra o governo (e não contra os outros). Claro que ele tinha suas preferências (os mocinhos sempre tem) e os mocinhos, os do bem, venceram os do mal. Mas as palavras de Magneto caem como uma luva para Obama, Condolezza e Collin:

Traidores de sua própria raça.


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