Porque Obama cai nas pesquisas

23 08 2008

Os jornais das três ultimas semanas (desde o começo de agosto) relatam que Obama caiu nas pesquisas de intenção de voto. Os analistas burgueses, inclusive os ligados ao Partido Democrata, tem se questionado sobre o problema. A maioria deles, depois de voltas e mais voltas, conclui que Obama tem que ser mais incisivo nas questões de economia, que o povo americano está com problemas – desemprego, aumento de preços de alimentos e da gasolina, pagamento das casas, etc.

Em certos aspectos, sim, eles tem razão. A situação econômica dos EUA beira uma catástrofe e os economistas burgueses se desesperam. Sabem que os ventos da revolução que varrem a America Latina podem muito bem atingir os EUA com uma força muito maior que mil Katrinas. Mas, isto não responde a questão: porque Obama caiu?

A situação nos EUA esta marcada, politicamente, pelos resultados do movimento anti-guerra do Iraque, movimento que colocou milhões de jovens nas ruas, que deslocou profundamente o movimento operário, apesar de não ter conseguido seus objetivos: impedir a guerra do Iraque e, após o inicio desta, conseguir a retirada incondicional das tropas do país ocupado. Mas a guerra do Iraque e as outras guerras sustentadas pelo imperialismo norte-americano tiveram outras conseqüências: quem vai pagar a conta? A guerra do Iraque tem o seu inicio com a votação pelo congresso dos EUA do seqüestro de 100 bilhões de dólares da previdência social em favor dos créditos de guerra. Durante os anos de guerra aprofunda-se a política de retirar ou diminuir os créditos federais dirigidos ao serviço público – educação, licença maternidade, auxilio a maternidade, auxilio aos desempregados, saúde pública. Cada vez mais diminuem os casos cobertos por verbas federais pesando sobre os municípios e estados o peso destas tarefas.

O Jornal Folha de São Paulo destaca a situação da classe trabalhadora Norte-Americana (24-08-08):

O valor fixado pelo governo federal para a remuneração mínima por hora de trabalho ficou congelado entre 2000 e 2007, quando houve um pequeno reajuste. Em termos reais (descontada a inflação), a hora mínima paga caiu de US$ 4,70 em 2000 para menos de US$ 4,40 -uma queda de 6,5%.
Como resultado, em 2006 (último dado disponível), a renda média das famílias era 2% menor do que em 2000. Isso em um período em que o lucro corporativo subiu 11% além da inflação, e os ganhos do 1% de americanos mais ricos, 95%.

A direita trabalha o sentimento dos pobres para dividir os trabalhadores e acusar os imigrantes ilegais de “usufruírem” o bem estar americano, fazendo votar leis estaduais e municipais que retiram dos imigrantes o acesso a estes serviços e inclusive o direito de educar seus filhos em escolas publicas. Hospitais promovem “vôos de retorno” onde pacientes doentes, por não terem seus custos cobertos pela saúde publica são retirados dos hospitais, inclusive sem o conhecimento de suas famílias e deportados em casos de internação hospitalar! A direita arma-se e forma “patrulhas da fronteira”, “minute- man”, organizações para-militares com o objetivo de atacar os imigrantes. Mas, como já explicamos, os ventos da revolução que vem do Sul atingem fortemente o Norte e pela primeira vez na história americana o primeiro de maio começa a ser comemorado com manifestações massivas de imigrantes as quais aderem sindicatos organizados. A tradição do movimento operário chega aos EUA pelas mãos dos latinos. Tal qual anteriormente os europeus exportaram para os países latino-americanos e asiáticos o socialismo e o comunismo, agora o movimento operário americano sofre a influencia dos latinos. Ironia. A burguesia ianque durante anos considerou a America Latina o seu quintal. Agora, os latinos se vingam levando para o movimento operário americano as tradições do movimento operário mundial. A “globalização” atinge a burguesia em se fígado.

A guerra do Iraque fracassou. Hoje, Bush é forçado a negociar um acordo de saída dos pais árabe com o próprio governo fantoche que ele fabricou. O período de “guerra quente” que ele abriu, após a “guerra fria” ter acabado leva a invasão da Geórgia pela Rússia (não é o caso, aqui, de analisar esta guerra) e leva a retirada de mais de 2.000 soldados “aliados”. Isto depois do governo espanhol ter sido derrotado e as tropas espanholas terem sido retiradas. Pouco a pouco o fracasso da guerra espalha-se pelo mundo e junto com a guerra espalhou-se o terrorismo, aumentou a produção de jovens dispostos a se explodir em busca de um mundo melhor (tática que só aumenta e repressão e com a qual não podemos ter nenhum acordo). Mas a principal herança da guerra foi econômica.

Para se financiar a guerra e a ocupação (diversos estudos falam em valores que variam de três a quatro trilhões de dólares gastos a fundo perdido) o capitalismo americano jogou-se como nunca antes nas mãos da alavanca artificial do credito. O credito para a construção e compra de casas ampliou-se como nunca antes. E, um dia, a conta da guerra e das casas tem que ser paga. E quando o dia chegou, as contas não fechavam. Pobres capitalistas, que vem seus bancos perder valor e até quebrarem. As agências hipotecárias americanas Fannie Mae e Freddie Mac tiveram queda no valor de suas ações de mais de 90%. Pobres capitalistas que são obrigados a pedir ajuda continuamente ao tesouro norte-americano. Enquanto falta dinheiro para auxiliar as mães que tem filhos, sobra para ajudar os bancos, para ajudar a Ford, a GM, etc. Fabricas, alias, que para sobreviverem, anunciam o fechamento de 10, 12 plantas industriais e a dispensa de centenas de milhares de empregados.

É neste clima sombrio, de desespero para a própria classe operária e para a juventude, é neste clima em que os dirigentes dos sindicatos tem como única política entregar os anéis e também os dedos, fechando acordo após acordo que permitem as fabricas de demitir e destruir diretos, é neste clima sombrio que surge o Senador Obama.

Sim, já analisamos em outro artigo o programa de Obama (http://luizbicalho.wordpress.com/2008/01/08/quem-e-barack-obama/). Mas, durante o embate duro pela indicação do Partido Democrata, Obama aparecia como o candidato que prometia a retirada das tropas dos EUA do Iraque, como uma novidade no ambiente político norte-americano. Mas, pecado dos pecados, Obama consegue a indicação do Partido Democrata e sofre uma transmutação: o candidato da esperança, da Obamania, mostra a público a sua verdadeira face (analisada no artigo citado).

Mas a burguesia americana quer mais. Assim como a burguesia exigiu de Lula a “carta aos brasileiros” onde ele prometeu mundos e fundos a burguesia, a burguesia americana quer que Obama mostre que pode lidar com os “problemas internacionais”. E Obama, assim como Lula, negou não três vezes como Pedro a Jesus Cristo, mas todas as vezes que a burguesia pediu ele negou a Obamania, negou os jovens e os operários que dele esperavam algo: Na sua viagem internacional, passando pelo Iraque, Israel e Europa, Obama deixou mais claro que nunca a sua disposição de atacar o povo palestino apoiando toda a política de brutal repressão do estado judeu sobre os palestinos, apoiou Jerusalém como capital de Israel (que tem muito mais que um significado simbólico, é a expressão que fincamos o nosso pé aqui e os outros é que se afastem), apoiou a invasão do Irã, apoiou toda a política de combate ao terrorismo, mais realista que o próprio rei ao falar do fantasma de Bin Laden. Bush, como muito gosta de Obama, completou a tarefa e decidiu fazer um plano de retirada das tropas do Iraque. E ai, afinal, onde se diferenciam os candidatos?

Ah, pobre burguesia. Ah, pobres democratas. Ah, chorem suas ilusões e seus sonhos perdidos. Sim, nada indica que a partida esta ganha pelos Republicanos, afinal Obama pode e deve completar sua transformação em Bush e escolhe como companheiro de chapa um “critico” da “condução” da guerra do Iraque, o Senador Democrata que é o Presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Escolha feita a dedo, um conservador “liberal”, bem visto por todos. E o ciclo se fecha e temos um vice-presidente à imagem de Cheney… Com a diferença que não é um grande industrial, o que ajuda a torná-lo mais palatável. E o povo?

Os sindicatos a esta altura do campeonato despejam rios de dinheiro e todo o esforço de sua militância para eleger um Obama… que é cada vez mais a cara de Bush. O resultado das eleições será um tapa na cara dos operários, qualquer que seja o eleito. A esta altura a Obamania que impulsionava a campanha, se reeditada, vai ser em bases totalmente diferentes, perdido o charme e a inocência que a caracterizaram no primeiro e derradeiro estágio. Obama caiu nas pesquisas porque ficou igual a Bush. Ainda pode ser eleito, pela maquina do partido democrata, mas não mais como a esperança de mudança. Sim, alguns ainda continuam um movimento vazio, sem razão de ser. Mas isto rapidamente se esvaziará e voltará às razões duras das necessidades da burguesia americana. Aos operários, resta a luta para construir um partido, para mudar as direções sindicais que não conseguem desgrudar de sua burguesia.


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