Eleições vazias

27 10 2008

Um artigo publicado n o Estado de São Paulo do dia 25-10-08 mostra o motivo da elevada abstenção neste segundo turno e joga também uma luz sobre os resultados reais desta. Afinal, todos os analistas estão se desdobrando para analisar os resultados – ganhou o PMDB, ganhou o PSDB, ganhou o PT, ganhou o DEM que ganhou em SP, dizem os diferentes analistas conforme o seu viés e conforme vem o mundo “político”.

A verdade é que estas eleições foram atravessadas pela crise econômica que grassa pelo mundo e ninguem soube se posicionar de forma a colocar-se neste período. O que mais se aproximou de uma solução, foram Marta e Maria do Rosário que, perdedoras, parabenizaram os adversários “a La EUA”, como se adversários não fossem, como se antagonismos não houvessem, como se da mesma classe fossem…e o são.

A diferença é que o proletariado continua no PT, mas os que se apresentam como representantes do partido a esta classe não mais pertencem. O cumprimento de Marta e Maria do Rosário, o telefonema de Marta para Kassab, mostram que há muito elas (e outros, inclusive os que venceram) ultrapassaram a fronteira de classe e continuam em um partido dos trabalhadores trabalhando para outra classe. Poderiamos também olhar o exemplo do Rio, com petistas fazendo campanha para um ex-PSDB que xingava Lula de ladrão ou Belo Horizonte onde um poste que era secretário de Aecio vira candidato na maior cidade mineira onde o PT tinha a prefeitura. Realmente, é um escárnio que se faz com a classe.

Mas, dizia eu, estes são apenas aspectos de uma eleição que nada decidiu e na qual a população nada podia ver. Vejamos o que dizia o artigo do Estado assinado por Mauro Chaves e intitulado “Como decidir amanhã”.Ele enumera 13 (sintomático) formas de escolher. A primeira é clara – “Escolha quem, por formação profissional, tem melhores condições de entender o que é a administração de uma cidade.”. Ou seja, o problema da escolha de um prefeito deixa de ser político, de opções políticas e passa a ser meramente administrativo. Borram-se as diferenças entre os partidos e temos que ver quem administra melhor. Aliás, este era o tom de todas as campanhas, que procuravam esconder a política e posar de melhor administrador, de mais competente. Mauro, então, apenas repercutia a própria campanha dos candidatos que esconderam a política e mostravam sua “competência administrativa”.

A segunda qualidade é a lealdade. O Psol e todos os partidos pequenos burgueses devem ter adorado tal lição. A terceira, de respeitar as leis e defender o espaço público então faz a festa para estes. A Quarta de ser contra o preconceito, mais ainda. A quinta, pedindo que o candidato não xingue os outros, apenas por desespero, é a glória! A sexta pede o respeito a imprensa, é o céu. A Oitava, que o candidato respeite os fatos e não minta…Nove, respeitar a justiça eleitoral. Decima, não sujar a cidade com sua campanha. Onze – ter a cara limpa! Doze não explorar a religião.

Esta parte da lista parecem com os 10 mandamentos, uma receita ética para a vida. O problema é que são onze e não entram nem a parte de não matar nem a parte de respeitar pai e mãe, mas me parece que caberiam na lista. E todos os candidatos que ganharam procuraram seguir a lista – pelo menos em publico, já que do que se faz no exercício do cargo, os compromissos assumidos para se conseguir o financiamento, estes não entraram na lista e nem na campanha, que é melhor não tocar num assunto que a todos é de determinada forma igual e todos se beneficiaram igualmente.

Confesso, preocupado, que acabei concordando com o item 13 da lista:

13) Vixe.

O que fazer então? Eu, como muitos, anularia o voto no segundo turno. Acabei não votando e justificando por estar em outra cidade. Mas não faz diferença. Estas diferenças, que os candidatos procuravam explorar entre eles só podem levar a constatação final (Vixe) e não se decidir por ninguém. Não por culpa do eleitor, do trabalhador, que sempre quer o melhor. Mas quando a hipocrisia é demais, é fácil decidir: ninguém serve. Assim se comportou uma boa parte do eleitor que sabe votar sim senhor e decidiu abster-se, votar em branco ou votar nulo.

Luiz Bicalho

WWW.marxismo.org.br

Luizbicalho.wordpress.com


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