Meu amigo Helder escreveu este artigo 3 anos atras e me deu de presente para publica-lo aqui. Algumas de suas previsões não se concretizaram – como a diminuição da dívida pública, que só fez aumentar em função da velha máxima do capitalismo: em caso de lucros, os pobres esperam o bolo crescer mais; em caso de prejuízo, socializemos o prejuízo com o estado bancando o prejuízo e aumentando a dívida pública que todos nós temos que pagar. O restante, podem conferir, é muitíssimo atual. Boa leitura.
Cassandra era filha do rei de Tróia e tinha um gêmeo, Heleno. Quando pequenos seus(deles) pais levaram os dois a uma festa em homenagem a Apolo e bêbados esqueceram-nos no templo. Os irmãos acabaram dormindo. No dia seguinte foram encontrados, ainda adormecidos, com as duas serpentes sagradas do deus a lamber-lhes os ouvidos. Este sortilégio deu a eles o dom da profecia.
Quando cresceu, a filha de Príamo, neste ínterim sacerdotisa, tornou-se tão bela que o próprio Deus do Sol apaixonou-se por ela e tentou seduzi-la. Rejeitado, Apolo, não podendo retirar-lhe o dom, lançou uma maldição: ninguém acreditaria em suas previsões antes de realizarem-se. Assim se deu quando Cassandra preveniu seus compatriotas de que, caso aceitassem o belo cavalo de madeira deixado pelos gregos como presente, Tróia seria destruída.
O destino de Heleno é obscuro, sabedor do destino da pátria deve ter fugido antes da desgraça para Atenas, onde enriqueceu especulando sobre o preço futuro do azeite de oliva. Comprava na baixa e vendia na alta. Se a maldição sobre a irmã o atingiu, também não se sabe, mas para o comerciante querendo enriquecer, melhor que não acreditassem mesmo na sua (dele) capacidade de prever o futuro.
Nossos economistas entrevistados diariamente pela Globo News, nada parecem com os gêmeos, o mesmo ocorre com os articulistas econômicos da grande imprensa local e mundial, talvez com uma única exceção ao recém laureado prêmio Nobel, Paul Krugman. Se os senhores representantes de corretoras que aparecem no “Conta-Corrente” com a Bovespa de cenário soubessem alguma coisa do futuro deveriam agora está ricos e não tendo que suar para garantir pequenos cachês de televisão.
É cômico ver que o plano de recuperação dos ativos com problemas, (TARP como sigla do inglês “troubled asset relief program”) tenha sido elaborado por um ex-executivo do Golden Sachs, agora Secretário do Tesouro e um acadêmico com uma obra sobre a depressão de 1929 à frente do FED. Estes senhores foram tão surpreendidos com a crise quanto os cidadãos troianos ao caíram na “TRAP”de levar o cavalo de pau para dentro dos muros da cidade.
O professor Delfin Netto, um pouco de “Heleno” em finanças, tem feito uma previsão pretérita: “se o tesouro americano houvera socorrido o Lehman Brothers, não teríamos crise, a instituição era grande demais para quebrar”. Se não aceitassem o cavalo, que felizes seriam os troianos… Por outro lado, o deficit americano de U$ 450 bi já era, por si, grande demais para existir, engordando agora com outros 850 “só para começo” e sem contar os “só para começo” de um trilhão de euros europeus e bilhões de yens japoneses. Esta montanha de dinheiro dá uma idéia do que vem por aí. Mesmo usando o instrumental tosco da Teoria Quantitativa da Moeda como microscópio da crise, os efeitos que advirão desta fenomenal injeção de dinheiro assustam. O pior, vale lembrar,é que esta injeção funcionará no sistema apenas como a de adrenalina na veia de uma pessoa que se tenta ressuscitar após um ataque cardíaco.
Não precisa ser Cassandra ou Heleno para intuir o que acontecerá a partir de agora. Agora é que vai começar a crise. Como que para facilitar as análises, o terremoto financeiro aconteceu em um início de mês, no início de um ciclo de transferência do grosso da renda das famílias para as empresas. Vai ser moleza ver o que vai acontecer no primeiro aniversário mensal, quando empresas terão de transferir (o grosso da) renda para as famílias.
Mas, analistas econômicos e financistas, como disse acima, não são cassandras. Quando de previsões catastróficas, os primeiros costumam errar, embora todos acreditem neles. Os financistas, bem, os financistas são helenos em tempo de catástrofes, costumam acertar, mas dizem o contrário do que de fato vai acontecer para poderem mais dinheiro ganhar.
Quem por acaso tenha acompanhado o movimento das bolsas no mundo, assustado que esteja com o sobe e desce dos índices bussáteis, deveria atentar para duas variáveis da física, tempo e espaço. Afora os instantes iniciais quando tudo despencou ao mesmo tempo, o pulsar das bolsas tem seguido mais as variáveis de Einstein que as de Hume. Tem ocorrido assim, caem as bolsas asiáticas e européias, sobem as americanas; sobem as asiáticas caem as européias e americanas, sobem as européias, caem americanas e asiáticas. O ritmo do pulso é sempre dado por alguma “otoridade” governamental ou monetária; Bush sempre se pronuncia quando chega a vez de Wall Street cair, a “anjinha” alemã é usada quando é o momento das européias subirem. Na Ásia, o BC japonês põe ou deixa de por dinheiro nos bancos dependendo da oportunidade da Ásia ser vértice ou vórtice. Até Moscou tem influído com decretações de feriados, subseqüentes aos quais sua bolsa sobe ou cai, sempre abruptamente. Mas, SEMPRE, em algum lugar do mundo há uma região com bolsas em contraste absoluto de ganho ou de perda com as demais. É muita coincidência para ser aceita pela teoria dos jogos.
Coincidência há, mas nada de aleatória. Como num “cara ou coroa” sempre alguém perde, mas alguém ganha. Com a total liberdade do fluxos de capitais, “helenos” mui espertos estão acompanhando o carro de Apolo e, a cada traspasse da linha internacional de datas, ficado mais ricos ainda. Cada centavo dos contribuintes do mundo inteiro jogado para “dar liquidez” ao sistema tem ficado insone, pulando de Ásia para Europa, de Europa para América e desta de volta ao começo. Sempre há uma bolsa aberta, como diria qualquer lanceiro.
Oscilações bruscas e alternadas nas bolsas fazem com que o sentido da palavra crise tenda para o mandarim escrito, onde seu(da palavra crise) ideograma é o mesmo de oportunidade. A lógica booleana é outro fator importante nas bolsas; alguém ganha, alguém perde. Se os financistas helenos, com sua tecnologia de informação, prática na movimentação financeira e cacife alto são os melhores candidatos a ganhadores deste cara-ou-coroa; quem seriam os perdedores?
Todos os outros, seria uma resposta correta, mas não suficiente. Países com superavit comercial, assalariados das nações centrais, trabalhadores em geral e a China em particular são os candidatos mais fortes para serem o lado fraco.
Quem financiava até antes da crise o gigantesco (menos, depois da crise) americano? Fala-se que a China teria Us$ um trilhão de reservas em dólar, a Rússia Us$800 bi, o Brasil, modestos duzentinhos, ao todo, estima-se que os emergentes sejam credores de 9 trilhões. O Produto Interno Bruto anual do EEUU beira os 15 trilhões, vamos supor grosseiramente, abstraindo a velocidade de circulação da moeda, transações com cartão de crédito etc, que haja 5 trilhões em papel moeda, verdinhas, rodando no país do tio San para gerar todo ano aqueles outros 15. Pois bem, agora chegou outro trilhão na roda. Supondo, mais grosseiramente ainda, que o estoque mundial de santinhos verdes chegue a 20 trilhões, ele acaba de ser engordado em 5%. Coeteris paribus em economês, ou deixando todas as demais variáveis constantes, e olha que são todas pró-crise, aqueles 9 trilhões dos emergentes só estão valendo 8,55 na economia real, mesmo que nestes primeiros instantes a moeda americana tenha se valorizado. Palavra de Cassandra que com o correr do tempo os santinhos verdes valerão muito, muito menos.
Depois do Ronald e da Margareth, apenas países periféricos como o Brasil mantêm uma previdência pública. Nos países centrais todo assalariado paga um fundo de pensão para garantir o Viagra e o salário da enfermeira na velhice. Os fundos de pensão embora geridos por quase helenos, tem controle mais rígido para movimentação de recursos mundo afora, apesar disso, ou principalmente por isso, foi de seus(fundos de pensão) patrimônio que evaporou, logo na primeira semana, a maioria dos sete trilhões que deixaram de existir na desvalorização dos “papéis”.
Estas pessoas não terão como pagar o desperdício que é a sociedade de consumo americana. Comprarão menos e, portanto, haverá menos produção, menos emprego até para quem não tem fundo de pensão, a cada ciclo de transferência de renda entre famílias e empresas a crise irá se agravar. Palavra de Cassandra.
Mas, e nós? O que vai acontecer conosco, com nossa economia? Vou dar a mão a palmatória. Nem toda a herança do FHC é maldita. Por ter feito o descalabro que fez por oito anos Fernando II, deixou-nos com o pé atrás, prontos para acreditar em outra profecia vinda do outro lado da nossa tradição greco-judaica. O mito de José do Egito e o sonho do faraó com as catorze vacas nos inspirou a fazer o que as anti-cassandras da mídia global chamava de tolice, prepararmo-nos para as vacas magras. Vamos perder dinheiro pela acúmulo de superavit em dólar? Vamos, mas nem tanto. Mesmo que percamos todo o “duzentinho” nossa economia vai se sair bem por outra razão, também criticada como tolice pela imprensa “especializada”.
O bolsa-esmola, como depreciativamente apelidado por Joelmires e Mírians, serviu de alicerce para a criação de um mercado interno “nunca dantes” sonhado, a não ser por cassandras autênticas do calibre de um Celso Furtado. Este mercado interno nos salvará do desastre que a globalização lançou ao mundo. Talvez salve a China também. Nossa economia, além do mais, é bem menos dependente do resto do mundo que a chinesa. Nossas importações equivalem a apenas 10% do nosso PIB e as exportações 13%.
Falsas pitonisas têm “alertado” para o aperto no crédito, perdas de exportações etc; que sofreremos a crise, quer queiramos quer não. Verdade que, além de queda coice, teremos uma nova rodada de protecionismo no mundo inteiro e isso vai encolher o comércio internacional e os, poucos para nós, ganhos da globalização. Também ocorreu de helenos incompetentes da Votorantim, Aracruz, Sadia, Klabin, perderem bilhões em operações desastrosas de “hadgers” e muito provavelmente haverá uma queda, se não da arrecadação tributária, ao menos uma desaceleração do crescimento dela. Voltarei a este ponto dos “hadgers” mais adiante. Mas, mesmo que tudo isso cause impacto em nossa economia; a principal função dela, responder às perguntas “para quem produzir?” com “para os trabalhadores”, e “como produzir?” com “empregando”; pouco importará a resposta da terceira “o que?”, contanto que não seja simplesmente “lucros”.
Mas vamos entender os “hadgers” e os prejuízos de “nacionais” com eles. Inicialmente, finjamos que grandes empresas preocupem-se apenas com lucros operacionais. Grandes exportadores planejam seus(delas) faturamentos e, por óbvio, os lucros. Vendem seus produtos e compram insumos a crédito, mas pagam aluguéis e salários à vista. Como o sistema de câmbio brasileiro, e de resto, do mundo todo também, é flutuante, uma valorização constante da moeda na qual empresas exportadoras apresentam balanços, o Real no caso, prejudicam-nas na medida em que o custo de produção fixo é coberto por uma receita decrescente. Quanto maior for a valorização do real frente ao dólar, maior o prejuízo pelo diferencial entre custos e receitas provocado pelo câmbio. Aí vem a sabedoria: Mercado Futuro de Câmbio, a quinta maravilha babilônica inventada pelos helenos. O problema é o seguinte, vamos supor que a Aracruz Celulose produziu em determinado mês um milhão, seiscentos e cinqüenta mil reais de polpa de papel; vendeu para a Xerox americana com prazo de 30 dias. Com a taxa de câmbio de R$ 1,65 por dólar a Aracruz receberia um milhão de dólares. Mas, no caso da moeda americana só valer R$ 1,50 em trinta dias a empresa só receberia um milhão e quinhentos mil reais.
A sabedoria funciona assim: A Aracruz vende seus dólares no futuro. Como assim? Bem . Na verdade ela assina um contrato em que promete à sua (dela) contraparte entregar um milhão de dólares em troca de, digamos, um milhão e seiscentos mil Reais. Isto é o que diz o contrato, o que acontece de verdade é outra coisa. No dia da liquidação do negócio, se o dólar estiver a R$ 1,50, a “compradora” paga à “vendedora” cem mil reais, caso cotação seja 1,62 a “vendedora” paga vinte mil à “compradora”, a contabilidade lança lucro ou prejuízo não-operacional no balanço. O negócio é feito independente da existência dos dólares.
Agora vamos deixar de fingir que as empresas preocupam-se apenas com seus lucros operacionais. O lucro é buscado onde é mais fácil. Aracruz, Votorantim, Klabin, Sadia estavam especulando no mercado, levaram um tombo com a subida inesperada das verdes.
Independente do lucro ser operacional ou não, a tributação do IRPJ e da CSLL é a mesma. Teremos, portanto, uma queda na arrecadação destes tributos. Vocês tem acompanhado pela imprensa os recordes de arrecadação e a cantilena da carga tributária escroque sobre os brasileirinhos, que “como provam os números da própria RFB”, a CPMF era desnecessária. Preparem-se para uma possível queda de arrecadação que pode servir de pretexto para adiar aumentos dos gastos correntes do governo – salários do funcionalismo.
Pelos dados “da própria RFB” dos 28 bilhões de reais a mais na arrecadação alardeados pela mídia, 20 bilhões tiveram como base de cálculo os lucros nas bolsas pelas empresas. O prejuízo divulgado por algumas grandes empresas brasileiras é apenas a ponta do iceberg, a arrecadação do IRPJ e da CSLL vai levar um baita tombo.
Eles, os jornais, seriam então pitonisas confiáveis? Eu diria que o Henrique Meirelles é sim um “heleno”, financista respeitado (entre eles, é claro) tem dito que a crise é séria.
Mas tem uma coisa, que passou despercebida nesta história dos “hadgers”: A Aracruz apostou errado, perdeu, terá menos lucro e pagará menos IRPJ e CSLL, verdade. Mas alguém ganhou. Quem? Este “quem” apostou certo, ganhou, terá um lucro igual ao prejuízo da fabricante de celulose e pagará mais IRPJ e CSLL, então não haverá queda na receita. Errado, ou melhor, depende de quem é este “quem”, se for uma empresa importadora, com razões para apostar contra as exportadoras no mercado futuro de câmbio, é isso mesmo. Mas se estes “hadgers” foram feitos no exterior por algum heleno, dançamos. Mas há uma possibilidade intermediária, a mais provável. Quem ganhou na aposta foi o BACEN, que não tem lucro nem paga imposto. A arrecadação vai cair, mas a dívida pública também. Palavra de Cassandra.
O prejuízo operacional do Banco Central em 2009 foi de R$147 bilhões e em 2010 de R$ 49 bilhões. Quem está ganhando com as apostas no mercado de derivativos são os bancos que aliás emitem séries e séries de derivativos sobre um mesmo ativo real. Veja art. http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/correio-caros-amigos/1839-a-crise-da-divida-dos-eua
A última previsão da Cassandra do texto era de curto prazo. (A arrecadação vai cair, mas a dívida pública também. Palavra de Cassandra.) Em relação ao longo prazo, sexta feira passada saiu n’O Globo, jornal de helenos, uma matéria sobre a dívida pública relativa ao PIB das principais economias do mundo, a do Brasil caiu de 2005 para cá. Na área central do capitalismo, EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, valeu a máxima do BI, a quem agradeço os gentis comentários introdutórios.