De Pé, Famélicos da Terra!

31 08 2011

Mais um texto do meu amigo Helder. Ironico e legal!

Tenho falado uma coisa que as pessoas acham que é brincadeira, mas nada mais sério: os pobres são nossa maior riqueza. E acrescento aqui hoje, temos que gastá-los até o último, não poupemos nenhum. E não é por caridade cristã, tipo amar os pobres e odiar a pobreza.

Esclareço que não simpatizo com nenhuma religião e minha crença é no materialismo histórico. A História é inexorável, mas, como um trem, mineiro ou siberiano, não deixa nenhuma estação esquecida. Sou contra a miséria, principalmente a miséria da filosofia. Assim, gastemos nossos pobres.

Sonho com o socialismo, mas sou marxista e a lógica da História nunca descarrilhouum trem para pegar um atalho com sucesso. As toscas tentativas de fazer isso esbarraram na dificuldade da classe operária em levar uma locomotiva nas costas, mesmo com maquinistas de aço confortavelmente encarapitados na cabine de comando. Até o fizeram por algum tempo, mas a que custo! Sem contar a trabalheira de recolocar um trem de volta aos trilhos e superar a desesperança do fracasso.

Taí, acabei por usar a Gloriosa Classe Operária para carregar um trem, tal qual um porco capitalista. Os operários estão diminuindo dia a dia no sistema capitalista. Quem sabe Proletariado? Mas eu disse no início destas linhas querer acabar com os pobres, então, quem irá fazer a revolução por nós? Seremos vanguarda de quem?

Desconfio que a alta burguesia financeira quer tomar nosso lugar. Já fizeram isso antes, e antes deles os industriais. E antes ainda, os barões de terras e as cabeças coroadas da Europa, assustados com algum fantasma,.imprimiram o que chamam de Ganho De Produtividade para alavancar a mais-valia. Embora não necessariamente a taxa desta.

Até que os camponeses fossem minguando em número e importância sem que os barões da terra preparassem suas mortalhas. E ocorresse o mesmo com os operários. O que dizer de escriturários, bancários e burocratas em geral? Os camponeses quase que totalmente varridos por tratores e colheitadeiras, operários viraram babás de robots, os white collars são pouco a pouco trocados por softwares, trade machines e redes de computadores.

Mas já estamos além do Livro III de Das Kapital. Pouca gente venceu os quatro tomos para vislumbrar o vislumbre de Marx. Na época em que publicou a análise do capitalismo financeiro, Engels ainda estava voltado para o combate aos reis da mina e da fornalha. Ao contrário do que dizia o Carlos, Minas ainda há, José. Na China e no Chile. Fornalhas também, mas seu fumo não mais embriaga e as cabines de operadores dos grandes guindastes são refrigeradas, não fazem mais suar a quem trabalha.

Estariam Marx e Engels errados? Muito pelo contrário. E quem diz isso não é nenhum companheiro estudante, campesino ou operário. Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York admite em artigo que MARX ESTAVA CERTO. Warren Buffet, PRATICA o conhecimento de MARX quando escreve no NYT aconselhando os colegas magnatas a entregar os anéis de ouro para preservar o de couro dos próprios dedos. Acredito que os Rothschild também acreditavam no barbudo, embora só confessassem isto a seus(deles) botões.

A questão é que a contradição básica do capitalismo, e não é necessário ler os 5 volumes do Capital para saber disso, é tão universal quanto a lei da oferta e procura. O diferencial dos capitalistas é que além de terem lido Marx, ao contrário de muitos tovarichs, eles o entenderam. Para Roubini, ainda não estamos na crise final que levará o capitalismo a autodestruir-se por causa da contradição básica. Ainda há espaço para adiar o inevitável. E é, justamente, gastar os pobres.

Sei que quem ler este Blog sabe da contradição, mas vamos ver como Roubini a formula, O que poderá servir para explicarmos ao nosso próximo prosélito, crescido assistindo He-Man na babá robótica e não lendo o Manifesto:

As corporações, disse Roubini, motivam-se pelos custos mínimos, para economizar e fazer caixa, mas isso implica menos dinheiro nas mãos dos empregados, o que significa que eles terão menos dinheiro para gastar, o que repercute na diminuição da receita das companhias.”

Não é bem mais fácil que usando os termos mais “exatos” tipo “burguesia”, “maximização da taxa de mais-valia”, “expropriação”, “pauperização do proletariado”? Mas a contradição está ali, inexorável da mesma maneira.

A sabedoria deles, Capitalistas, Burgueses, FDP ou como quer que os chamemos, é reduzir o proletariado a uma palavrinha mais bonita: CONSUMIDORES. A forma para adiar o final infeliz usado pelo ( vamos fazer mais uma traduçãozinha no nosso discurso? Vamos trocar sistema capitalista por) MERCADO é crescer sempre. Como uma bicicleta, se parar cai. Crescendo, o mercado pode manter a, vá lá, taxa de exploração, mantendo os consumidores em um nível de sobrevivência. Atenção, sobrevivência como consumidores, não como seres humanos. Esta desumanidade acabou quando MARX revelou a contradição à burguesia cruel.

Os burgueses individualmente são até bonzinhos. Os dois homens mais ricos do mundo são também os maiores filantropos e arrepiam-se de desgosto ao verem a miserável fome da Somália ou de Bangladesh, a questão é que se não maximizarem seus lucros serão engolidos por outros burgueses menos bonzinhos. O mercado é que tem de crescer sempre.

Antes de prosseguir, esclareçamos esta história de capitalista bonzinho. O capitalista bonzinho é o capitalista falido. Quando o Buffet afirma que vai deixar apenas uma ínfima parte de sua(dele) fortuna para os filhos e que o restante irá para uma fundação filantrópica, está falando a verdade. Só não diz que faz isso para não pagar impostos e que os herdeiros serão os administradores da fundação boazinha.

Mas, voltemos ao crescimento do Mercado, ou capitalismo, como queiram:

Pelo lado da produção, o problema do crescimento já está resolvido desde o século passado. Basta aplicar tecnologia e o capital pode, quase sozinho, produzir uma quantidade tão grande de bens capaz de soterrar Terra inteira com lixo. Manter um exército de reservas de desempregados não mais ajuda a maximizar lucros desde meados do século XX. A necessidade hoje é de CONSUMIDORES. Não é à toa que Índices de confiança de consumidores sejam hoje mais importantes que os de emprego.

Apenas nós, a esquerda, vemos a dicotomia empregadores versus empregados. Os donos do mundo vêm a coisa como O Mercado e os Consumidores, e as interações entre os dois.

Antes de nós, eles são os mais ávidos em gastar os pobres, transformá-los em consumidores para continuar a crescer. O nó é que nada pode crescer indefinidamente. Até porque do lado da demanda, a propensão marginal do consumo tem um limite. Aí, vez por outra há a necessidade de inventar novas necessidades humanas para reacender vendas e consumo. Mas logo os ganhos de produtividade imprimem tal velocidade à produção que sacia a todos, e tome lixo para o planeta. 

Todo mundo já ouviu a frase, buscar novos mercados. Isso nada mais é do que, vamos procurar pobres para gastar. Mas, e se acabarem-se os pobres? O capitalismo tem uma outra fórmula além da busca por novos mercados: criar pobres, destruir, guerrear. Esta é que deve ser nossa maior preocupação frente ao Capitalismo/ Mercado.

Por enquanto ainda há muita riqueza de pobres espalhados pela Ásia, América Latina e principalmente África. Que felicidade a quantidade de pobres chineses! Mas os burgueses de lá os estão gastando rápido demais. Pior, o capital chinês tem voltado os olhos oblíquos e dissimulados para os pobres do resto do mundo.

Mas como os malvados capitalistas acumulam riqueza se o nível de consumo até do proletariado de algumas partes de mundo beira ao “empapuçamento”? O barões da terra gostavam de artigos suntuosos para armazenar a exploração, os reis da mina e da fornalha guardavam-na em ouro. Mas paralelamente a tudo isso foi surgindo o “cofrinho” de guardar “ganhos de produtividade”, que de quebra ainda serve para incrementar estes mesmos ganhos. O CRÉDITO.

Interessante como crédito, confiança, respeito e status podem ter o mesmo significado. No capitalismo, pelo menos os capitalistas acreditam, são sinônimos perfeitos.

Neste contexto, a contradição funciona mais ou menos assim: para incrementar os ganhos, o mercado deve prover-se de consumidores, Daqueles mesmos antigamente chamados de operários, camponeses, escriturários; em suma pobres. Mas estes pobres, ao transformarem-se em consumidores, deixam de sê-los e ainda apresentam um defeito extra, têm uma propensão marginal ao consumo decrescente e também adquirem seus cofrinhos.

Os capitalistas inventam novas necessidades, já dissemos, mas também elas têm limites e se os consumidores não aplicarem toda sua renda em consumo, o retorno do capital será também decrescente. Hora da entrada do Crédito. O problema colocado é como compensar a fuga do capital para a poupança sem que o retorno do Capital diminua por consumo decrescente. Solução, consumir pobres. Mas estes não têm renda proveniente de um ciclo anterior porque ainda são pobres.

Sem problema: emprestamos dinheiro aos pobres, os pobres só são pobres na ética protestante por não terem confiança, não terem crédito perante o Criador. Sejamos deuses devem ter pensado os banqueiros quando descobriram o Crédito. Mas o processo tem que ser constante caso contrário a bicicleta cai.

Os bancos ainda têm uma arma a mais, podem fabricar dinheiro. Como? Você já ouviu falar em derivativo, alavancagem? É por aí, acreditem porque não é o assunto deste texto. Para simplificar digamos que os bancos fabricam confiança. Ou Crédito.

A acumulação da mais-valia dá-se no sistema creditício. Caso todo o capital fosse aplicado em produção, o desvio acumulativo do próprio capitalismo e a propensão marginal decrescente ao consumo levariam o mercado à míngua.

O dinheiro do capital financeiro não existe, os capitalistas fingem que ele existe e os mais ingênuos acreditam sem fingimento. E acreditar que ele existe implica na crença no crescimento constante.

Pense na economia como um terreno de dois níveis, o da produção ou da realidade onde o proletariado ou consumidores vendem seu suor e com seus salários consomem o que eles próprios produzem. Claro que para isso funcionar não pode haver sobras de produto. No segundo nível os ganhos de mais-valia são usados para buscar mais consumidores.

O nível superior do mercado financeiro é o nível da fé. Para continuar crível, o crédito tem de parecer produtivo e crescer, crescer e crescer. Render, render e render.

Aqui acontece o busilis da contradição: para o nível de cima crescer é necessário o crescimento, na mesma proporção, do nível da economia real. Ou seja, a taxa de mais-valia não pode expandir-se globalmente embora seja este o objetivo de cada capitalista individual. Quando o desequilíbrio fica muito grande, surgem as bolhas. Termo mais que apropriado para definir o descolamento dos dois níveis. Quando as bolhas explodem o dinheiro envolvido com ela torna-se o que realmente é _ NADA.

Sem fé, Deus não existe.

Então o capitalismo está condenado a caçar pobres. E claro que já há, dentro da burguesia, conservacionistas preocupados com a extinção dos pobres, Buffet é um deles.

 Há paliativos para as crises cíclicas do mercado quando os pobres parecem escassear. Cobrem-se as dívidas, levem alguns bancos à  falência e eliminem-se alguns ricos, de preferência os mais ingênuos e recém convertidos… latinos americanos na última metade do século XX, latinos europeus no início do XXI.

 Mas isto é só um paliativo. O remédio definitivo, nós famélicos da terra e alegres consumidores devemos lutar para não ingerír _ A GUERRA.

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6 responses

1 09 2011
Ivacir Júlio de Souza - AFRB ( RJ) no CARF

Há muito que eu não lia algo tão bem elaborado, simples, lúcido, articulado e com visão macro. Helder meu Caro, gosto de voce.

1 09 2011
Leonisio Resende

Helder, és um cínico iluminado.

2 09 2011
Helder Luis Gondim Rocha

Caríssimo Ivacir,
Muito obrigado. Tenho outro texto neste blog chamado Cassandra 3 anos depois. Também escrevo no blog Contraponto Sindifisco: http://sindifiscooposicao.blogspot.com/

3 09 2011
Helder Luís Gondim Rocha

Caríssimo Leo, dizem que Diógenes recebeu a visita de Alexandre o Grande que, de pé e saciado, em frente ao barril onde morava o cínico, colocou um desafio:
_Peça o que quiser e eu lhe concederei.
_Desejo então, oh rei, que saia da frente do sol. Desejo ser iluminado pelo carro de Apolo.

3 09 2011
Adriano Corrêa

De fato, uma análise profunda e muito esclarecedora.

Nosso querido militante social, Walter MIranda, de Araquara, certamente sugerirá outra receita a ser aplicada pelos famélicos da terra: Só a luta muda a vida

5 09 2011
Helder Luís Gondim Rocha

Besteira, Adriano. Qualquer coisa dita sobre Marx em 4 páginas é superficial.
Luta muda é ávida por não poder falar.

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