Crônicas indignadas

Justiça

Desde cedo todos nós somos ensinados a buscar e a esperar pela justiça. Tanto a bíblia como a escola ensinam que a justiça é parte essencial do mundo. E, no estado burguês, a justiça tem nome, existe um poder (Poder Judiciário) e todos são ensinados a respeita-lo. É o ultimo local onde se buscam os direitos, dizem todos. E até os ditados populares ensinam a respeitá-la: “a justiça tarda mas não falha”.

Entretanto, na vida real, as coisas não se passam bem assim. O Ministro Marco Aurélio, explicando ter soltado um banqueiro que fugiu para a Itália (Cacciolli) declarou: “todos tem o direito a fugir”. Todos? Claro, para um banqueiro rico e poderoso, este direito é fácil de ser exercido. Para o operário que ocupa uma fábrica e é retirado a força pela polícia federal, como fugir? Como fugir da fome e da miséria do dia a dia nas favelas? Como fugir quando o BOPE invade uma favela e mata a torto e a direito? Sim, até mesmo na imoralidade do nosso Santo Ministro, o direito vale para a burguesia e não vale para a classe operária.

Aliás, justiça é o que todos gostariam que o Senado fizesse, cassando Renan Calheiros. Mas, como um Senado onde a quase maioria dos seus membros é acusado em processos de corrupção na justiça comum vai cassar um dos “seus” por…corrupção? Os brados dos pequeno burgueses que exigem que o Senado se livre de sua banda podre não pode atenuar a situação: há uma linha estreita ligando Marco Aurélio, ministro do Supremo Tribunal Federal e Renan Calheiros. Há uma linha estreita que liga a burguesia a defender os seus e a atacar a classe operária. Uma linha que liga os que aplaudem a tortura do BOPE como meio de investigação nas favelas no filme Tropa de Elite e os que justificam Marco Aurélio.

Justiça. É o que reclamam os operários que vem seus salários rebaixados. Afinal, neste momento de “recuperação” econômica, as estatísticas mostram que o salário médio baixou nos últimos 12 meses. Aumentou o emprego, diminuiu o salário médio, aumentou o lucro.

Justiça. É o que reclamam os que não tem terra, quando uma comissão de senadores consegue paralisar a fiscalização do trabalho escravo reclamando de “demasiada rigidez”. Afinal, fiscalizar fazendas no Pará, fiscalizar fazendas em SP que empregam catadores de laranja com salário abaixo do mínimo é ser “demasiado rígido”, é ser “injusto com quem produz” (os donos das fazendas, coitados, que empregam trabalhadores miseráveis..)

Sim, a justiça para a burguesia é simples: a liberdade de comerciar, de explorar, de vender e comprar, seja o que for: o corpo da menina criança na praia de Copacabana, a vida do lavrador convertido em escravo, o voto de um senador, a moral de um Marco Aurélio que adora conceder liberdade a quem tem “o direito de fugir”.

As greves que ressurgem, nos Correios, nas metalúrgicas de Curitiba, a campanha salarial dos bancários, tudo isto mostra que só existe um caminho para se obter justiça para os pobres: a organização e a luta da classe operária, que pode um dia destruir estes “podres poderes” da burguesia e conseguir uma verdadeira justiça operária.

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A vida tem preço …e a morte leva ao lucro

“a força da grana, que ergue e destrói coisas belas”(Caetano Veloso-Sampa)

Quando Airton Sena morreu num acidente na Italia, a consternação no Brasil foi geral. Agora, recentemente, em um dos acidentes da Formula 1, um piloto bateu em um muro a mais de 300 km/h e sobreviveu. Sem fraturas. Então, porque morrem tantos em acidentes de automóveis?

Em ultima análise, no capitalismo, até a vida humana tem preço. Tem um preço barato no interior deste Brasil afora, onde um pistoleiro pode ser contratado para matar o roceiro miserável que não quis sair de uma terra ou que incomodava demais o fazendeiro. Tem um preço maior se for um religioso ou sindicalista ligado ao movimento dos Sem-Terra. Tem um preço barato se for iraquiano, haitiano ou negro morando na favela do Rio ou de São Paulo. Tem um preço que as montadoras de automóveis não querem pagar para aplicar uma tecnologia similar a da Formula 1 em automóveis de passeio e eliminar as mortes por acidente.

Tem um preço mais barato que políticos – presidente, juízes, deputados e senadores, ministros e presidentes de banco central – pagam todo dia se expondo ao mandar pagar os juros e principal da dívida e não fazer o que seria necessário para proteger o povo. Afinal, o problema do transporte no Brasil é o que afirmou Lula

“Nosso sistema aéreo, apesar dos investimentos que fizemos na expansão e na modernização de quase todos os aeroportos brasileiros, passa por dificuldades. E seu maior problema hoje é a excessiva concentração de vôos em Congonhas.”

Sim, falta dinheiro para construir uma ferrovia rápida entre Rio e SP que há muito teria diminuído o tráfico aéreo nesta direção. Sobrou cupidez e cara de pau para privatizar as ferrovias e acabar com o transporte de passageiros nelas. Falta dinheiro para dar segurança a pista do aeroporto de Congonhas, para melhorar o equipamento de tráfico aéreo (radares, equipamento de pouso sem visibilidade), para melhorar a pista, para construir mais pistas no aeroporto de Guarulhos, para construir uma saída de concreto que impeça o avião de deslizar no final da pista, para desapropiar e aumentar o tamanho da pista em Congonhas. Falta dinheiro para pagar salários melhores para controladores, falta resolução política para tirar estes vôos de Congonhas quando os “quase-acidentes” se repetiam um dia após o outro (é só lembrar o avião que deslizou um dia antes).Falta coragem para dar estabilidade no emprego para os pilotos poderem criticar as Cias aéreas e defender os passageiros. Sobra cara de pau para anunciar medidas depois do pior acidente aéreo da America Latina, cara de pau para dizer que “fizemos investimentos”, quando qualquer um que passa por um aeroporto pode ver que os investimentos foram em shoppings, cinemas, escadas rolantes…e como tragicamente vimos agora, nunca nas pistas ou equipamentos de segurança.  Sobra, sobretudo, cara de pau para dizer que o problema é a concentração de vôos em Congonhas e esquecer o resto todo!Sobra cara de pau e “mal entendidos”, de uma Cia Aerea que anuncia ter desativado um freio (o reverso da turbina) porque ele pode ficar desligado por 10 dias (segundo manual), enquanto pilotos e especialistas declaram que em pista molhada não se poderia pousar numa pista daquele tamanho sem este equipamento, sobra cara de pau aos dirigentes dos órgãos que deveriam fiscalizar as empresas, que informaram a um juiz no começo do ano que os aviões só poderiam descer em Congonhas com o uso deste equipamento …e nunca fiscalizaram tal exigência, já que era a segunda vez que este avião descia naquele aeroporto sem o tal reverso!Sim, a vida dos que morreram no vôo da Tam tem um preço maior, mas um preço que a TAM está pagando, que as Cias. De seguro pagam para não pagarem o funcionamento dos aviões somente em condições ótimas de segurança (por exemplo, sempre com o reverso ligado). Lula anunciou uma serie de medidas. Paliativas, mas sem tocar nos grandes problemas. E deixou para outro momento a privatização da Infraero. Sim, como sempre, quando no final pessoas morrem, surge a oportunidade de novos negócios. E a Vestal do Palacio do Planalto, Ministra Dilma, diz que não vai anunciar o local do novo aeroporto para evitar a especulação imobiliária. Interessante. Não se precisa ser um “grande especialista” para ver que seria mais barato aumentar as pistas de Cumbica (o outro aeroporto de SP) e construir mais terminais lá. Mas a morte, tal qual a vida, no final, sob o capitalismo, deve garantir mais lucros. E construir um novo aeroporto vai dar muito mais lucro e, claro, “ninguém” vai saber a nova localização do aeroporto. Sim, falta dinheiro para construir ferrovias, vontade política para reverter as privatizações feitas por FHC. Falta dinheiro para construir hospitais e laboratórios, sobra vontade política para privatizar o que resta de saúde publica com as tais “fundações”. Sim, a morte é natural e de vez em quando leva alguns que se partissem mais cedo não atrapalhariam tanto o Pais, como Antonio Carlos Magalhães, que tem luto oficial na Bahia e avião da FAB para transportar os parentes para o enterro, enquanto os parentes dos mortos no avião da TAM sofrem por noticias. Morto, ACM ganha elogios por ter “modernizado a Bahia”, modernização da qual sofrem até hoje os baianos. As investigações sobre as 200 mortes de Congonhas vão demorar ainda e, se a cara de pau aumentar muito, terminarão culpando o piloto que, morto, não vai poder reclamar. Sobre a morte do dia a dia nos morros e favelas do Rio e São Paulo, estas já não causam comoção. A morte do dia a dia no interior do Pais ordenada por fazendeiros também já não rendem noticia. As mortes causadas pela falta de estrutura e de médicos nos hospitais, só rendem noticia se for na fila ou se o morto passar antes por 3 ou 4 hospitais e de preferência ser mulher e grávida, sem isso nada se fala. Os trabalhadores saberão cobrar essas e outras faturas. Hoje labutam e morrem sem destaque nos jornais. Mas saberão construir um mundo onde a morte não sejam contada em notas de reais pagas a um pistoleiro, a balas perdidas e achadas na favelas do Rio, em filas e corredores lotados de hospitais, no “acidente” da TAM causada pela ganância das Cias aéreas e pela cumplicidade do governo atual e governos passados.

Luiz Bicalho

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Justiça pra quem?

“e o pobres, deputado?…os pobres, tadinho dos pobress”(bordão do deputado Justus Verissimo, personagem de um programa de humor de Chico Anisio) 

Segundo as estatísticas do governo, a cada hora 7 jovens são presos no País. O novo plano de segurança do governo prevê “operações” como a feita no morro do Alemão no Rio de Janeiro, onde 19 pessoas foram mortas (nenhum preso), 11 com tiros nas costas, 5 deles com tiro na nuca (indicativos de execução depois de rendidos). O Morro do Alemão, segundo as estatísticas oficiais, é o lugar mais pobre do Rio de Janeiro.

Enquanto isso, 5 jovens filhos da pequena e alta burguesia da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro espancam e roubam uma empregada doméstica “por diversão” (declaração de um deles ao ser preso). O pai de um dos jovens declara aos jornais que “isso aconteceu porque mulher é frágil. Qualquer empurrãozinho e já fica marcada”. A mulher em questão teve um braço fraturado…Presos, o delegado declarou que não haverá “diferença de trato” e todos serão processados. Eles estão em uma cela separada dos outros presos…bom, ai já não se consegue explicar o porque (já que nenhum deles tem curso superior).

No dia a dia dos morros e favelas do Rio e São Paulo, a policia mata indiscriminadamente. Em um posto do município de Caxias (periferia do Rio) um jovem foi morto por um policial ao reclamar de receber um tapa durante uma revista a que foi submetido.  Esta é a justiça. Dos processados das operações “espetaculares” da policia federal, segundo estatísticas do Estado de SP, só 1% é condenado. De todas as “autoridades” (deputados, juízes, prefeitos e outros) processados, só 5 foram condenados (não é preciso lembrar, Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal).

No Senado, o seu presidente (Renan Calheiros) não consegue explicar de onde vem o dinheiro que empregava para pagar uma pensão “pequena” de 9 mil reais mensais. Os senadores, alias, não devem estar tão interessados em investigar, já que um terço deles é objeto de ação judicial por roubo, furto, crime eleitoral (compra de votos), etc. O novo presidente do Conselho de ética do senado é um dos processados.

Enquanto eles se entendem sobre a sua “justiça” os trabalhadores sofrem a justiça. Nos morros e bairros populares, as execuções sem juízes e sem direito a apelação. Nos campos, aumentam as mortes de Sem-Terra e as condenações por invasões de terra. No movimento dos trabalhadores, a criminalização. A Cipla, empresa ocupada pelos trabalhadores, é invadida pela Policia Federal e a comissão de fábrica demitida. Os lideres da greve dos controladores de vôo são presos e ameaçados de condenação por “motim”.  Cada vez mais, aos trabalhadores, aparece o estado, a justiça, aquilo que Engels definiu: um bando de homens armados com o objetivo de garantir a dominação de uma classe. Daí a violência gratuita nos bairros populares, daí que todos os “grandes” quando processados, quando pegos em algum crime dificilmente vão para a prisão.

Os trabalhadores sabem que a sua luta pode e deve mudar isso. E que para tal é necessário derrubar o Estado atual e substitui-lo por um Estado burguês. É para ajudar nesta tarefa que existe a Esquerda Marxista.

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