Uma crise longa

13 03 2008

Uma crise longa

historia-da-moeda20.jpgEnquanto que em 1929 a queda dos preços de ações produziu um impacto que depois se espalhou pelo resto do mundo e da economia, a crise atual anda a passos de tartaruga, com os Bancos Centrais do mundo inteiro tentando conter a avalanche que chega com colchões cada vez mais ineficientes.

O Banco Central dos EUA anunciou na segunda-feira passada (10 de março de 2008) um crédito de 200 bilhões de dólares para “ajudar” os bancos. É engraçado. Enquanto que por conseqüência da crise, da queda do valor das casas nos EUA, queda de salários e desemprego dezenas de milhares de hipotecas são executadas (as chamadas sub-prime, sem garantia real) e famílias inteiras colocadas no olho da rua sem qualquer ajuda ou perdão, bilhões e bilhões de dólares de dinheiro público são usados para ajudar os pobres banqueiros que estão tendo prejuízo com a queda do valor de seus “ativos” bancários já que os pobres (estes de verdade) não estão conseguindo pagar suas casas.

Bush propôs e o congresso aprovou um pacote de devolução do imposto de renda com um valor total de 80 bilhões de dólares. Obama e Hillary – os dois candidatos que disputam a indicação para presidente pelo partido Democrata – tem um plano parecido. Enquanto eles pensam o que fazer para devolver dinheiro a quem pagou ao tesouro americano, o verdadeiro tesouro é gasto em “empréstimos” generosos feitos para os bancos! Ou seja, ajudar o pobre que não tem casa, tomando uma iniciativa como impedir a tomada de casa de quem não pode pagar e só tenha aquela residência, nisso ninguém fala (atenção – para aqueles que gostam de comparar, a lei no Brasil diz justamente isso!).currency-mixed.jpg

A verdade é que o mercado financeiro nos EUA foi desenvolvido a um ponto de saturação. E a um ponto em que o credor tem direito a tudo e o devedor nada. Falta pouco para se chegar na situação da Bíblia, onde o devedor era obrigado a se escravizar para pagar sua divida. Mas está quase lá. E o resultado? Um credito imenso, sem garantias reais e hoje ninguém pode pagar a conta.

A situação vai melhorar? Não parece, já que em fevereiro o governo dos EUA teve o maior déficit dos últimos anos. E, apesar de todos os empréstimos do Banco Central um dos maiores fundos (Carlyle capital) informou que não conseguiu chegar a um acordo com seus credores e tem 16 bilhões de dólares de dívidas não-cobertas.

Os economistas norte-americanos começam também a ter que reconhecer algo que já explicávamos antes neste espaço – os custos da guerra do Iraque (que já chegam a 3 trilhões de dólares, mais do que o PIB brasileiro) sem que se consiga lucro levaram a derrocada do dólar, a sua queda ou nas palavras imortais do nosso ministro da economia, ao “derretimento” do dólar.

O Euro abriu nesta manhã de quinta (13 de março de 2008) em valendo 1,56 dolares, o maior valor. O dólar está abaixo de 100 ienes. E o valor da onça de ouro chegou aos 1.000 dolares! Sim, o ministro Mantega está certo – o dólar…derreteu.

Ao contrário dos otimistas, isso não significa uma “queda” do imperialismo. O que assistiremos em pouco tempo será uma crise no mercado mundial, onde o dólar será deslocado da função de moeda mundial e outras moedas vão competir por esse lugar. Um cenário parecido com o que acontecia antes da II Guerra Mundial, onde cada pais (imperialista) busca impor a sua moeda como a moeda valida nas trocas. O Brasil antes de 45 negociava empréstimos e transações comerciais em franco, libra (principalmente), marco alemão e dólar. Agora, já vemos negociações entre Brasil e Argentina para se fazer a troca direta entre moedas, sem se fazer a intermediação do comercio em dólar. As vendas da Alemanha aumentaram no mês de fevereiro apesar (e, provavelmente por causa) da crise. O mundo continua a girar apesar do derretimento do dólar, mas o comercio vai sofrer um baque, os valores vão ficar defasados – e o aumento desenfreado do preço do petróleo tem a ver com isso, é o dólar que cai não é o petróleo que aumenta de valor.https://luizbicalho.files.wordpress.com/2008/03/moneybillscoins3.jpg

Nos últimos doze meses o preço médio do petróleo subiu 70% (de 62 dolares o barril para 110 dolares). Se contarmos desde 94, o preço do barril quase se multiplicou por dez, passando de 15 dolares para os atuais 110!

E paises com Brasil e China? Vão sofrer? A crise siquer começou e ela já se mostra: a China teve a maior inflação dos últimos anos, o seu superávit comercial caiu. O Brasil já tem 3 semanas de déficit comercial. Claro, a economia continua a girar, fabricas estão sendo construídas, o emprego aumenta. Até quando?

A queda do valor do dólar tem efeitos que ainda não foram medidos: a China acumulou reservas em dólar (investidos em títulos da divida norte-americana) no valor de mais de 1,5 trilhões de dólares. O Brasil um valor de 200 bilhões de dólares. O dólar está derretendo…e as reservas também. Enquanto isso, se a dívida externa liquida do Brasil é negativa (as reservas superam a divida), a divida interna vai muito bem, obrigado: chega a 1,4 trilhões de reais, quase um trilhão de dólares. E os juros continuam os maiores do mundo, com o BC brasileiro ameaçando aumenta-los para conter a inflação.

Ah, o problema é que a crise é mundial e receitas anteriores podem levar ao desespero: aumentar os juros podem levar a novamente o Real subir frente ao dólar e, com isso, maior déficit comercial…e o crescimento todo do Brasil pode ir para o abismo. O governo, confrontado, resolve tomar medidas tímidas: Cobrar IOF sobre o capital estrangeiro investido em títulos da divida (os brasileiros hoje pagam, os estrangeiros não) para impedir a vinda de mais dolares e, portanto, em teoria, pela falta de dólares o preço dele deve subir; não cobrar IOF dos exportadores e não obrigar o repatriamento do dólar assim que vender mercadorias no exterior. Essas medidas vão adiantar? Em principio, muito pouco. Como já explicamos é dólar que cai de valor e medidas pontuais (sem diminuir a taxa de juros) não vão alterar a situação. A queda do mercado mundial é exatamente isso: uma conseqüência mundial e não um “problema brasileiro”.trabalho-indsutrial-2.jpg

Existe uma solução? Existe, mas ela não passa por medidas “capitalistas”. A única solução real é expropriação dos meios de produção e a reversão da produção para as necessidades do povo. Enquanto tivermos o capitalismo, enquanto a busca do lucro for o motor da atividade econômica, cada crise e cada retomada só significarão mais choros e misérias em um futuro próximo. Ah, é difícil. Sim, mas ninguém disse que a estrada do paraíso era fácil. O que não é possível mais é aceitar este cotejo de misérias, onde para se resolver uma crise os de sempre são beneficiados: os banqueiros nos EUA e os exportadores no Brasil.








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