40 anos do assassinato de Martin Luther King – Começa a revolução de 1968

6 04 2008

1968. Uma revolução vai varrer o mundo de pólo a pólo, do norte ao oeste. Na França uma greve geral questiona o governo De Gaulle e somente o fato do Partido Comunista ter recusado-se a centralizar o movimento e derrubar o governo impediu o proletariado de tomar o poder. Mas, tanto na França como no restante do mundo, o que a burguesia quer falar é sempre da juventude. No Brasil, é o ano das greves dos metalúrgicos de Osasco mas o que passa a história é a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro.

Na Tchecoslováquia uma revolução derruba a direção do Partido Comunista e coloca um novo comitê central que propõe o socialismo com liberdade. Os privilégios odiados da burocracia são questionados. A revolução se espalha pelo mundo. Nos EUA o movimento negro incendeia o país, enquanto que no mundo inteiro a juventude questiona as reformas estudantis e a guerra do Vietnã. As tropas da burocracia soviética invadem a Tchecoslováquia, os estudantes são massacrados na Universidade do Mexico, a greve com ocupação de fábricas é sufocada em Osasco. O que a burguesia divulga disso tudo?

Ah, os lideres românticos estudantis, “vermelhos” não tão vermelhos assim, os que colocam “a imaginação no poder”, os que procuram meios e formas de substituir o proletariado pelas novas vanguarda (e seus sucessores de hoje que dizem que mudaram as formas de produção, que não existe mais o proletariado). Todos esses são vangloriados e o proletariado, de preferência, é esquecido, nunca existiu e se Martin Luther King virou feriado, é bom esquecer o lado que o liga a revolução, o lado em que ele procura construir uma Coalizão do povo pobre, o lado de apoiador das greves e de combatente contra a greve do Vietnã.

É preciso lembrar: King nunca foi um comunista. Ele declarou um dia:

O comunismo existe hoje por que o cristianismo não está sendo suficientemente cristão.

Sim, mas King era muito mais que os Obama ou as Condolezza de hoje e não é a toa que as agencias de noticia destacam e o Estado de São Paulo explica:

A maior parte dos americanos vê o reverendo King como o pregador do discurso ‘Eu Tenho um Sonho’ no memorial Lincoln Center, em Washington. Mas o homem que fez sua última viagem a Memphis em 1968 se tornou um radical, segundo estudiosos e ativistas. King apostou seu legado numa cruzada final revolucionária, que alarmou seus conselheiros mais próximos. Segundo a CNN, alguns estavam preocupados com sua instabilidade emocional.

O reverendo chamou essa cruzada da ‘Campanha das Pessoas Pobres’. Ele planejava marchar em Washington com uma multidão de pobres para um manifesto que visava paralisar a capital americana. O objetivo de campanha era forçar o governo federal a parar o financiamento da guerra do Vietnã e destinar esse dinheiro para o combate à pobreza. Em seu último discurso à Conferência Cristã do Sul, King teria dito que o objetivo do movimento era de “reestruturar toda a sociedade americana”. Ele teria ainda defendido a nacionalização de algumas indústrias e chamado a audiência a “questionar a economia capitalista”.

A radicalização do discurso do reverendo nos últimos anos de sua vida causou controvérsias com outros ativistas pelos direitos civis e fez com que King perdesse um de seus mais importantes interlocutores: o presidente Lyndon Johnson. No dia 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de sua morte, ele proferiu um discurso contra a guerra do Vietnã de muita repercussão. “Johnson ficou furioso”, conta Roger Wilkins, um oficial destacado pelo Departamento de Justiça como ligação entre o ativista e o governo americano.

Nos anos 1960, o FBI definia King como “o líder negro mais perigoso e eficaz do país”. Em julho de 1963, o então ministro da Justiça Robert Kennedy autorizou o FBI a espionar King. Microfones chegaram a ser instalados na casa dele com o objetivo de comprovar ligações com o partido comunista, o que nunca foi provado.

Este artigo esclarece muita coisa. Primeiro que King, como ele mesmo declarava nunca foi comunista. Depois, que ele tinha ligações – como explicou Hylary Clinton outro dia – com o Presidente (democrata) Johnson, sucessor de Kennedy (após seu assassinato). E que a burguesia, que nunca foi tonta, mandou espionar King (ordem dada pelo irmão do Presidente Jonh Kennedy, Robbert). Como se vê, a burguesia conversava com King e procurava mante-lo em redea curta mas a força do movimento que se radicalizava no ano de 1967 e levaria a explosão de 68 levava King a ir muito mais a esquerda do que ele pensava inicialmente.

O assassino de King, assim como o do Presidente Kennedy foi achado rapidamente. Mas se mataram Lee Osvald rapidamente (o “assassino” de Kennedy) esqueceram de matar o pretenso assassino de King e ele passou os 10 anos seguintes a sua “confissão” negando a confissão que fizera.

O assassinato de King fez o pais pegar fogo (literalmente) de norte a sul, com a revolta negra e fez com que o partido dos Panteras Negras crescesse imensamente (até ser destruido pelo FBI ajudado pela Mafia).

O resultado dessa revolta foi a conquista de várias leis de direitos civis de um lado e, de outro lado, a derrota dos EUA no Vietnã alguns anos depois. E a política da burguesia com relação aos negros mudou. Incentivado principalmente pela Fundação Ford surge a política de “cotas”, da “discriminação positiva”, visando a criação de uma elite negra que possa “controlar” os negros e deixa-los “no seu lugar”.

Hoje, o político que “aparece” como o herdeiro de King é justamente Obama. A esse respeito encontramos uma análise muito lúcida de um articulista da Folha de São Paulo:

Negro e branco, brilhante e flexível, Obama revitaliza King

Gilles Lapouge

Barack Obama tinha 6 anos quando Martin Luther King foi assassinado em Memphis. Desde aquele 4 de abril de 1968, a história mundial tornou-se tão efervescente que esquecemos a face dolorosa dos EUA. A candidatura de Obama é um convite a nos lembrarmos dela. No entanto, se o eloqüente Obama é um herdeiro da epopéia de King, ele o é de maneira longínqua, imprecisa.

King, pastor na Geórgia, foi o representante exemplar dos descendentes de escravos africanos que viviam no sul, repelidos e desprezados pela maioria dos brancos. Obama vem de outra parte. Ou melhor, vem de todos os lugares ao mesmo tempo – e essa é a sua força. Ele é negro e branco. Nasceu no Havaí, de pai queniano e mãe branca de alta linhagem: entre seus ancestrais está Jefferson Davies, presidente dos Estados Confederados da América. Muito jovem, retornou ao Quênia. Estudou em uma escola muçulmana na Indonésia. Fez seus estudos superiores nos EUA. Tornou-se cristão e participou de uma igreja negra de Chicago. Nada disso lembra a história de King. Lembra mais a de um imigrante do que a de um negro americano.

Há outra diferença. King não se inscrevia no jogo normal dos EUA e de suas instituições. Ele não conduziu uma ação política. Era um pastor que a miséria e a injustiça vieram interpelar. Já Obama é um homem político. Seguiu todos os currículos. Sabe das dificuldades. Conhece todas as sutilezas. Assim, o combate que empreende não é exatamente o mesmo que o de King. É por isso que evitou tão ferozmente apresentar-se como o recuperador da bandeira de King.

Sim, Obama o evitou. Afinal o “reverendo de Obama” representa bem melhor o combate do povo negro dos EUA pela sua libertação, o combate em que King chegou um dia a propor nacionalizações e a questionar o capitalismo, o combate que um dia produziu o partido dos Panteras negras (retirado do artigo citado acima):

Em 2003, Jeremiah, que foi uma espécie de guia espiritual de Obama, clamou: “Em vez de dizer ‘Que Deus abençoe os EUA’, é preciso dizer: ‘Que Deus amaldiçoe os EUA’, que tratam como subumanos alguns de seus cidadãos.” Pior: após os atentados de 11 de setembro de 2001, Jeremiah ousou dizer: “Surpreende-me que as pessoas se espantem de que tudo o que os EUA fizeram no estrangeiro seja jogado hoje em sua cara.”

Sim, isto tudo é muito distante do “homem politico” que é Obama. Mas Obama por mais que queira não pode enterrar de novo King e ele é obrigado a se pronunciar. Afinal de contas fazem 40 anos que King foi assassinado e ele Obama precisa de novo discursar, no seu já conhecido estilo de “estamos todos juntos” (para os brasileiros, isto é muito conhecido. Quanto já não disseram que precisamos estar todos juntos, quantos já não pediram que não me deixem só? Todos, invariavlemente, se colocaram contra os trabalhadores e contra os pobres, mesmo apelando pateticamente para estes) – Perdoem a citação longa, mas ela é necessária para entender a torção que Obama é obrigado a fazer para distorcer a luta de King em apoio aos lixeiros em greve, a sua luta contra a guerra do Vietnã em uma “luta por todos os EUA”:

Mas também acredito que valha a pena refletir sobre o que King estava fazendo em Memphis quando ele saiu por um momento à varanda, antes de deixar o motel para jantar.

Sua missão lá era apoiar os lixeiros da sua cidade em sua greve. Eram trabalhadores que serviam a cidade há anos sem se queixar, recolhendo o lixo dos outros por baixos salários e ainda menos respeito. Os transeuntes os chamavam de “urubus andantes” e, devido à segregação que ainda existia no sul, eles tinham de usar bebedouros e banheiros separados.

Mas em 1968 esses trabalhadores decidiram que já chegava, e mais de mil deles entraram em greve. Suas demandas eram modestas: melhores salários, mais benefícios, e o reconhecimento de seu direito de sindicalização…

Depois de descrever a luta de King, Obama começa a explicar o seu “entendimento” dessa luta:

Foi essa a batalha que levou King a Memphis. Uma luta pela justiça econômica, pelas oportunidades de que pessoas de todas as raças e condições deveriam desfrutar. Porque King compreendia que a luta pela justiça econômica e a luta pela justiça racial eram na verdade a mesma luta e parte de uma luta ainda maior, “pela liberdade, pela dignidade e pela humanidade”. Enquanto houvesse norte-americanos aprisionados na pobreza, enquanto lhes fossem negados os salários, benefícios e tratamento justo que mereciam enquanto as oportunidades existissem apenas para alguns e não para todos-, o sonho de que ele falou continuaria fora de alcance.

Na véspera de sua morte, King pregou um sermão em Memphis sobre aquilo que o movimento a que a cidade estava assistindo significava para ele e para o país. E em tons que se provariam sobrenaturalmente proféticos, King disse que, a despeito das ameaças que havia recebido, não temia homem algum, porque havia estado lá no momento em que Birmingham despertou a consciência do país. E havia estado lá com os estudantes quando estes se ergueram pela liberdade ao ocupar lugares reservados a brancos nos restaurantes. E estivera em Memphis em um momento em que estava escuro o bastante para ver as estrelas, e para ver a comunidade unida em torno de um propósito comum. King havia galgado a montanha. Vira a Terra Prometida. E embora soubesse na medula dos ossos que não chegaria a ela conosco, estava certo que chegaríamos lá.

E depois de ter explicado o seu “entendimento” de King, Obama vai explicar a sua propia opinião sobre o mundo, o mundo no qual não interessa se sejamos pobres ou ricos, trabalhadores ou senadores, todos somos “iguais”:

Ele o sabia porque havia percebido que os norte-americanos têm “a capacidade”, como disse naquela noite, de “projetar o eu no tu”. De reconhecer que, não importa a cor da pele, não importa que fé professemos, não importa quanto dinheiro tenhamos, não importa que sejamos lixeiros ou senadores dos Estados Unidos, todos temos interesses mútuos, todos devemos cuidar de nossos irmãos, de nossas irmãos, e “ou nos ergueremos juntos ou cairemos juntos”.

E assim, depois de sermos todos “iguais nesta noite”, Obama critica a revolta dos negros e elogia tanto Robert Kennedy (lembram, aquele mesmo que mandou o FBI espionar King) e Coreta King (mulher de Luther King) por pregarem a paz social. Mas Obama não seria Obama se ficasse ai. Ele relembra que a injustiça existe até hoje e que é necessário a “unidade” de todos, da burguesia e do proletariado na grande nação americana para que possamos “viver em paz”.

E quanto ele foi morto no dia seguinte, a alma de nosso país sofreu uma ferida da qual ainda não se curou. E em poucos lugares essa dor foi mais pronunciada do que em Indianápolis, onde Robert Kennedy estava fazendo campanha. E coube a ele informar a um parque repleto de militantes que King havia sido morto. À medida que o choque se transformava em raiva, Kennedy lembrava aos espectadores da compaixão de King, de seu amor. E, em uma noite na qual cidades de todo o país foram iluminadas pelas labaredas da violência, em Indianápolis houve silêncio.

Nos dias que seguiram à morte de King, sua mulher, Coretta Scott King, preferiu apontar para as estrelas. Ela assumiu a causa do marido e liderou uma marcha em Memphis. Mas embora os lixeiros da cidade terminassem por conquistar seu contrato sindical, a luta pela justiça econômica continua a ser uma porção inacabada do legado de King. Porque o sonho continua fora do alcance para número excessivo de norte-americanos. Ainda esta manhã, surgiu o anúncio de que o desemprego do país está mais alto agora do que esteve em muitos anos. E em toda a nação, famílias enfrentam preços em alta, salários estagnados e o terrível fardo de perderem suas casas.

Parte do problema é que, por tempo demais, nós vivemos com uma política mesquinha demais para a dimensão dos desafios que precisamos encarar. Trata-se de algo sobre o que falei em discurso que fiz algumas semanas atrás em Filadélfia. E o que eu disse foi que em lugar de termos uma política que faça jus ao apelo de King pela união, temos uma política que usou a raça para nos separar, ainda que isso apenas alimente as forças da divisão e da dissonância, e nos impeça de resolver nossos problemas.

É por isso que a grande necessidade desta hora é mais ou menos a mesma que existia quando o Dr. King pronunciou seu sermão em Memphis. Temos de reconhecer que, embora tenhamos todos passados diferentes, compartilhamos das mesmas esperanças para o futuro que possamos encontrar um trabalho que pague salário decente, que seja possível encontrar serviços de saúde acessíveis quando adoecemos, que possamos um dia enviar nossos filhos à universidade, e que, depois de uma vida de trabalho árduo, nos seja possível desfrutar de uma aposentadoria segura. Trata-se de esperanças comuns, sonhos modestos. E eles ocupam posição central na luta pela liberdade, dignidade e humanidade que King começou e que nos cabe concluir.

Sonhos modestos. Sonhos modestos que só podem ser cumpridos se o capitalismo for derrotado e o socialismo for instalado. Pois a imensa riqueza dos EUA é desperdiçada na ciranda financeira e produz em quantidades iguais a miséria, a desigualdade e os …ricos.

Estamos sendo severos com Obama? Sim, dirão alguns. Mas ouçamos a voz sensata da burguesia americana, a voz sensata daquela que é um dos pilares do governo Bush, aquela que é produto das “cotas” raciais que a guindou de filha de trabalhador a uma das mulheres mais poderosas do Planeta. Deixamos Condolezza Rice falar:

Citada eventualmente como possível candidata a vice-presidente na chapa republicana, a secretária norte-americana de Estado, Condoleezza Rice, elogiou na sexta-feira o pré-candidato democrata Barack Obama por seu recente discurso sobre a questão racial.

“Há um paradoxo neste país e uma contradição neste país, e ainda não o resolvemos”, disse ela numa detalhada resposta sobre Obama e a questão racial, a propósito do 40o aniversário, na semana que vem, do assassinato do líder negro Martin Luther King Jr.


Rice contou que seu pai, uma avó e uma bisavó sofreram “terríveis humilhações” em suas vidas no sul na época da segregação, e mesmo assim sempre amaram os EUA.

Sim, americanos negros e brancos fundaram o pais juntos. Uns, os negros, como escravos nas plantações e casas dos “pais” da patria norte-americana. Outros como senhores de escravos e camponeses livres. Uma pequena diferença entre uns e outros que Condolezza (e Obama também) distorcem. Afinal, eles são “homens e mulheres politicos” que devem dizer aquilo que deve ser dito para que a raiva da população negra contra eles não se volte. Devem atuar como legitimos guardiães da burguesia, seja ela branca ou negra que hoje explora o proletariado branco e negro e joga os dois na mesma miséria e mesma exploração (não esquecendo nunca que o racismo continua e os negros continuam mais pobres que os brancos, pois afinal é assim que dividimos os trabalhadores e conseguimos com isso que uns briguem com os outros enquanto que a burguesia segue o seu caminho de exploração).

Sempre quiseram a mesma coisa, Srª Rice? Os donos de escravos e os escravos? E a luta pelos direitos civis? E a guerra civil? Onde ficaram estes tempos? Para Condolezza e para Obama, melhor ficariam bem enterrados em livros de história e não fossem lembrados no dia a dia por quqalquer um que veja a miséria e a devastação que causaram um furacão Katrina, para qualquer um que veja que os negros sofrem muito mais que os brancos nessa luta diaria para sobreviver.

King morreu porque quiz fazer o seu sonho nesta terra. Ele não era um comunista, não era um revolucionário, mas era muito mais que todos esses que são “traidores de sua propria raça”.

Nós, marxistas, sabemos o que é necessário .”Proletários do mundo, uni-vos”. Esta é bandeira da I Internacional, a bandeira sobre a qual continuamos a combater e que brancos e negros, trabalhadores desse mundo, sofredores desse mundo, se unirão para derrubar a burguesia e erguer na face da terra o sonho de King e de todos que combateram as injustiças sem se render aos poderosos do mundo.

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