23 de abril – Valparaiso

24 04 2011

Promessas. Promessas devem ser bem articuladas, formuladas e, se não as faço para entes ou deuses inexistentes, as faço para mim. Mas o que fiz não chegou a ser uma promessa, era antes uma intenção: escrever somente sobre amenidades do dia a dia, algumas banalidades que por vez cruzam o nosso caminho arduo e fazem desse caminho algo mais suave.

vista de Valparaiso da casa de Neruda

Valparaiso no Chile era uma cidade que prenunciava algo assim. Pego um onibus comum e desço a serra em direção ao mar. Valparaiso. Sonho, mar, sol. Pode-se ver o porto e o mar a medida que chegamos na cidade. Do ponto de onibus até a casa de Neruda, gastamos menos de 30 minutos. Sonhos. A casa é no alto, de lá se ve o porto e o mar. Mas, algo está errado.

Em frente a casa construida ao lado da casa de Neruda

A primeira impressão sobre este erro é quando entro na primeira sala do museu: lá, um conjunto de posters explica o que estão fazendo. E o que estão fazendo é construindo um complexo em torno, ao lado, em cima, embaixo da casa original de Neruda. Sim, a casa se mantem mas a paisagem em torno foi totalmente modificada.

Se a casa de Neruda em Santiago conserva toda a parte política do poeta, a casa em Valparaiso é um assassinato político. Duas ou tres referencias ao fato de Neruda ser comunista e, no final, o poeta era somente um beberrão, amante da boa farra, marido exemplar, amigo para todas as horas, uma admirador do porto e do mar, um homem que sabia beber e se divertir.

Claro que sempre conservei minhas criticas políticas ao poeta que comunista também era membro de um partido estalinista e, como tal, parte dos erros e crimes que estes partidos cometeram. Mas o que fizeram com ele foi pior, muito pior. O estalinismo fez de tudo para eliminar Trotsky e sua política – assassinou seus colaboradores, seus filhos e depois ele próprio. Cortaram das fotografias e também reescreveram os livros para que ele passasse do mais fiel colaborador de Lenin para o rol de seus inimigos. Mas, justamente por isso, a sua legenda e seus ideais, organizações baseadas em suas proposições nasceram e morreram e continuam a viver.

A ditadura chilena, a direita, se ao queimar os livros de Neruda quis mostrar ao mundo que ele não existia mais e não mais poderia existir, trabalhando assim, fez melhor que os que hoje conservaram sua casa em Valparaiso: disseram ao mundo que ele era um comunista, inimigo perigoso do capitalismo e de todas as ditaduras.

Em Valparaiso, aparecem as referencias a que Neruda foi um senador comunista e até se inscreveu no partido comunista. Mas a tônica geral é o bom-vivant, do homem amante do vinho, do sol e do porto, do trabalhador da palavra e da poesia, de alguém que vivia de sonhos, de poesia, de ver o mar e o porto. Nada do militante combativo, nada sobre sua morte e sobre como tentaram apaga-lo da face da terra, a ele e todos os seus escritos. Morte pior que essa não pode haver: do homem combativo sobrou somente o amante do vinho e das nuvens.

Sim, eu sei: a morte de Marx também se faz por ai. Os que hoje se dizem marxistas, trotquistas, a maioria deles se Marx e Trotsky vivos fossem já teriam sido cobertos de ridículo. Ridículo todos os que se dizem trotquistas, internacionalistas, que só conseguem defender bandeiras nacionalistas e bandeiras rasteiras sindicais. Rídiculo todos os que se dizem marxistas, socialistas, comunistas e querem explicar que o proletariado não é mais aquele, que existem “novas vanguardas” e “novos caminhos”.

Mas estou me perdendo, ainda que em uma cronica com algo de político. Valparaiso é bela e feia. Belas suas paisagens que Neruda apreciou, feio e sujo o porto, seus prédios construidos pela ditadura, suas banquinhas de camelo aonde encontramos pulseiras com simbolos nazistas a venda.

Hotel Rainha Vitoria - Valparaiso

Sim, eu me penitencio. Tal imagem – a pulseira com a cruz gamada – me enojou e acabei não fotografando. Ainda se encontram bancas com simbólos “a esquerda” – Che, Socialismo, Liberdade. Mas o ritmo geral da cidade, em primeira impressão, talvez muito mal formada de todo viajante apressado que passa e só olha “por cima” muito pouca coisa em cinco horas de caminhada, é feia. Lamento. Pelos trabalhadores chilenos que tanto já lutaram e que tanto lutam.

Saudações Comunistas

Luiz Bicalho

lateral suja do Hotel Rainha Vitoria

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