Pobreza

26 08 2008

Banco Mundial cria nova linha internacional da pobreza

Nos EUA, o candidato Republicano, MacCain, para se livrar da pecha de rico que não sabe quantas casas tem, lembra o seu passado de prisioneiro de guerra no Vietnã, onde não tinha mesa, cadeira, TV…

Na convenção Democrata, a mulher de Obama faz um discurso onde se esforça para mostrar que o candidato é parte de uma família que vive o “sonho Americano”.

No Brasil, Lula promete acabar com a pobreza com a riqueza do Pre-Sal, riqueza em Petroleo que não se pode saber quando será extraído, já que se localiza em areas profundas que nunca antes foram exploradas comercialmente.

O STF, que nunca se dignou a olhar a dignidade de nenhum preso pobre, agora proíbe algemas porque um banqueiro foi algemado e perde sua dignidade. Resta saber se os pobres que continuam morrendo no dia a dia nos morros terão o mesmo tratamento digno do STF, de preferência, antes de morrer…

Sim, a vida segue após as olimpíadas, com uma discussão se gastamos muito ou pouco dinheiro para só trazer 3 medalhas de ouro, com todos olhando maravilhados a China.

Ao pé de pagina, ficamos sabendo que nos EUA a renda dos trabalhadores caiu nos últimos anos e a renda dos ricos aumentou e que este movimento continua, apesar e inclusive por causa da crise, que os preços das casas estão caindo e cai portanto o valor do patrimônio dos trabalhadores e dos pobres. Na Inglaterra começam os movimentos de retomada das casas dos que não podem pagar. Nestes países, o credito atinge por volta de 150% a 170% do PIB nacional. No Brasil, coitadinho, o credito atinge apenas 40% do PIB, os banqueiros olham esperançosos a possibilidade deste valor aumentar, em particular aumentando o credito imobiliário que aqui é só 2% do total do crédito e nestes países chega a 70%…Sim, tudo vai bem e podemos, com um pouquinho de ajuda nos metermos na mesma crise dos EUA e Inglaterra, além de sofrer as conseqüências das crises deles.

A crônica seria insípida e esta insípida se não me atingisse os olhos uma noticia do site do Estadão que usei para enfeitar o inicio da pagina: Banco Mundial cria nova linha internacional da pobreza. Reproduzo aqui uma parte da noticia que acredito ser de interesse geral.

Um novo cálculo do Banco Mundial aponta que o número de miseráveis cresceu em quase todo o mundo. A nova linha da pobreza, de US$ 1,25, revela que em 1981 havia 1,9 bihão de pessoas vivendo com essa quantia diariamente, ao contrário da antiga margem, que considerava que 1,5 bilhão sobrevivia com US$ 1,00 por dia. De acordo com o novo cálculo, em 2004 havia 1,4 bilhões de pessoas vivendo com US$ 1,25 diários; com a margem antiga, 985 milhões viviam com US$ 1,00. Salvo a China que vem conseguindo resultados positivos no combate contra a pobreza, o mundo continua vendo um aumento no número de miseráveis nos últimos 25 anos, inclusive na América Latina. Até mesmo a Índia, que alegava ser um exemplo de crescimento, demonstra ter um número maior de pobres hoje que em 1981 em termos absolutos.

Eu olhei a noticia e no principio não entendi. É isso mesmo? Só é pobre quem vive com menos de dois reais (R$ 2,00) por dia? R$ 60,00 por mês? Vindo de onde veio, não me assustaria se este fosse o novo valor do salário mínimo que o Banco quer propor…

É um valor muito baixo, pense cá com meus botões.  Ainda por cima, se olharmos uma outra noticia, no site do Estado de São Paulo de hoje (3/9/08) que explica:

4,8% foi a alta da inflação em julho no grupo de 30 países mais ricos ante o
mesmo mês de 2007
5,6% foi o aumento dos preços nos Estados Unidos

7,2% foi a alta nos preços dos alimentos nos países desse grupo

Sim, os preços aumentam e particularmente os preços dos alimentos (quase o dobro do restante). E resolvi pesquisar o valor da bolsa família do governo Lula (Folha de São Paulo):

O valor máximo do benefício do programa Bolsa Família pago às famílias com renda mensal de até R$ 60 vai subir, a partir de julho, dos atuais R$ 172,00 para R$ 182,00. Com a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de reajustar em 8% os benefícios do programa, o valor mínimo pago às famílias pobres do país também vai passar de R$ 18,00 para R$ 20,00.

O programa Bolsa Família reúne três tipos de benefícios. Pelo tipo básico, o pagamento é de R$ 58,00. É destinado às famílias consideradas extremamente pobres, aquelas com renda mensal de até R$ 60 por pessoa.

Nas famílias com renda per capita entre R$ 60 e R$ 120, o benefício é de R$ 18 –limitado a três crianças e adolescentes –que subirá para R$ 20. O valor máximo do benefício vai saltar de R$ 172 para R$ 182 àquelas famílias com renda até R$ 60, com mais de três filhos que recebem o benefício para básico, além de dois jovens matriculados regularmente nas escolas.

O benefício do tipo que considera o número de adolescentes por família é no valor de R$ 30. É pago a todas as famílias ligadas ao programa que tenham adolescentes de 16 e 17 anos freqüentando a escola. Cada família pode receber até dois benefícios variáveis vinculados ao adolescente, ou seja, até R$ 60.

Com o reajuste, todos os beneficiários do programa terão aumentos –uma vez que os valores pagos pelo programa variam atualmente de R$ 18,00 a R$ 172,00, de acordo com a renda mensal por pessoa da família e o número de crianças e adolescentes até 17 anos.

Uma citação extensa porque parei para ler atentamente. É evidente que o Bolsa Familia corresponde aproximadamente ao valor que um pobre recebe, fica no limite considerado pelo Banco Mundial. Parece até que combinaram.

Qualquer trabalhador sabe que isto é muito, muito pouco. Os operários industriais recebem bem mais que isso, inclusive naqueles setores com mão de obra considerada mais desqualificada como construção civil ou tecelagem. Viver acima do limiar da pobreza é ainda ser pobre. Muito e muito longe de ter o necessário para viver. Lembremos que o índice

O Banco Mundial demorou 3 anos estudando para chegar a conclusão que o limiar de pobreza deveria passar de 1 dolar para 1 dolar e 25 centavos. Nestes 3 anos o valor dos alimentos – algo que é básico para todo pobre – subiu muito mais de 25% a nível mundial e o valor do dólar desceu mais ainda. Os economistas que fizeram o estudo, é claro, ganham muito mais que 1 dolar…a hora.

Um comentário interessante – na China diminuiu a pobreza? No Pais onde o numero de greves e manifestações aumenta a cada dia? No Pais onde milhões são despejados de suas terras e jogados sem condições nenhuma em cidades, deslocados milhares e milhares de quilômetros, com famílias deslocadas vivendo marido e mulher sem se verem o ano inteiro, filhos arrancados dos pais em tenra idade para irem trabalhar? Na verdade o que acontece é que a China passou de uma economia planificada, onde havia necessidades mas o básico era suprido para uma economia de mercado onde milhões e milhões são jogados não só na pobreza de menos de um dólar por dia, como, além disso, toda a rede de proteção social que existia – comida, casa, educação quase gratuitas ou gratuitas foram simplesmente desmanteladas. Mas as estatísticas do Banco Mundial só medem o que a pessoa recebe de dinheiro e isso não era dinheiro…

Mais que nunca é valida a previsão feita pelos Marxistas do Seculo XIX de que o capitalismo criava imensas riquezas e pobres mais ainda, mais e mais camadas são jogadas no proletariado, mais e mais a necessidade da revolução social, da derrubada do capitalismo se faz sentir no mundo inteiro.

Anúncios




“Os babacas” e a revolução

21 08 2008

O presidente Lula viajou ao Nordeste e animado pelos ares e pela pobreza da região, ou talvez incorporando Padre Cícero, Lampião ou o Antonio Conselheiro, resolveu agredir os que não concordam com seus programas. Lula declarou:

“Quando criamos o Prouni tinha um tipo de gente que fazia discurso assim contra o governo: “ah, estão privatizando a educação”, “ah, estão dando dinheiro para universidade particular”. Ou seja, os babacas não percebiam que estávamos fazendo uma revolução na educação brasileira”

“Aí tinha um tipo de estudante daqueles que vocês sabem, que vai para a reitoria querer bater no reitor. “Ah, 18 alunos é muita gente na sala de aula, 18 alunos vai atrapalhar a educação”. O babaca rico que já estudava não queria que o pobre tivesse a chance”

Os leitores hão de nos perdoar se, ao invés de nos enquadrarmos como “babacas” como falou o nosso Presidente, nós quisermos olhar a realidade educacional de nosso País e os programas que o governo faz, comparando-os com a realidade. Ao final o leitor poderá julgar se somos “babacas” ou revolucionários.

As estatísticas mostram que o numero de alunos em faculdades particulares cresceu espetacularmente nos últimos 20 anos, crescimento este que não resultou do Prouni, foi anterior a ele. Ressaltamos que os alunos destas faculdades pagam as faculdades por pelo menos 3 vezes – quando pagam a sua mensalidade, quando pagam os livros caríssimos dos cursos, quando pagam os impostos que garantem que estas faculdades funcionem com isenção de impostos e seus donos, perdão “manutenedores” continuem a auferir lucros, perdão “ajuda de custo”, milionários. Estas faculdades mantem na maioria das vezes cursos que funcionam na base do “cuspe e giz”, onde não existem laboratórios, as bibliotecas são comedias. O Maximo que conseguem é laboratórios de informática onde os computadores são disputados a tapa. Muitas delas funcionam em Shopping Center e agora a nova moda no Rio é de faculdades funcionando em estações de metrô, além de cursos a distância…

Sim, toda uma fábrica de diplomas funcionando a pleno vapor.

Enquanto isso, a realidade das universidades federais e estaduais é de um horrível abandono. Prédios com infiltração, faltam carteiras. Os laboratórios com dificuldades de funcionar com falta de peças de reposição. Em todas elas a implantação de “fundações apensas” de direito privado que ficaram tristemente famosas com o escândalo do apartamento do reitor da UnB, onde verbas para pesquisa são buscadas em convênios com empresas e são desviadas, muitas vezes, para fins nada dignos.

Entretanto, como qualquer empregador sabe, é muito mais confiável um engenheiro formado em uma universidade publica que em uma universidade particular. Eu, como um pobre que chegou a uma universidade publica por méritos próprios, que nunca tive carro para estudar lá, que trabalhei para pagar meus livros, minha comida e meu transporte enquanto estudava, como posso me sentir um babaca ao defender esta universidade?

Cada um é cada um. Lula se orgulha de não ter feito universidade. Eu, petista, sempre defendi que um presidente não precisa fazer universidade. Mas defendo muito mais que um presidente não precisa destruir as universidades. Lula critica os que acham que multiplicar por 9 o número de alunos, aumentando as verbas em 20% são “babacas”. Presidente, com muita sinceridade, babacas seriamos se acreditássemos no senhor que a qualidade do ensino não cai com a multiplicação do numero de alunos e um aumento ridículo de verbas.

Sr. Presidente: estão errados os que acham que o Senhor deveria aumentar as verbas das universidades publicas para aumentar os alunos? Estão errados os que acham que ao invés de dar mais dinheiro para os patrões, perdão novamente, “manutenedores” de universidades privadas o Senhor deveria estatiza-las, estatizar toda universidade que recebe verbas federais (neste país, incrivelmente, são todas! Nenhuma universidade sobrevive por suas próprias pernas)? É errado achar que nosso rico dinheiro não deveria engordar mais ainda estes tubarões do ensino? É errado achar que as “fundações apensas” deveriam ser proibidas?

Querido Presidente: o Senhor faz uma “revolução ao contrário” ao aumentar os lucros das universidades particulares e rebaixar a qualidade do ensino das universidades publicas. Nós, ao contrário, queremos uma revolução que estatize toda universidade que dependa de verbas publicas, que de ensino universal.

O Senhor, Presidente, tem consciência, junto com seu governo, de que seu plano não é de universalizar o ensino. Tanto é que o Senhor, ao lado destas propostas, mantem uma proposta de criar cotas para as universidades, como se colocar um negro na universidade fosse acabar com o racismo. O Movimento Negro Socialista há tempos vem criticando esta proposta e lutando por um ensino universal. O Senador Cristovam, de quem discordamos em muitos aspectos, propõe que todo o ensino básico e médio seja federalizado e assumido pela União. O Senhor reluta até em aplicar totalmente o piso nacional (já rebaixado) para professores de nível básico e médio. O Seu Ministro da Educação está estudando uma medida para que a parte que exige um maior tempo de preparação de aulas não seja exigido dos antigos professores, ou seja, que os Estados e Municípios não sejam obrigados a contratar mais professores. E isso quando as salas de aulas destes estados e municípios tem não é 18 alunos por sala de aula, mas 40, 50 ou 60.

Por falar nisso Sr Presidente. Eu cá tenho uma duvida: onde o Senhor achou uma sala de aula de universidade com 2 alunos? Aliás, onde o Senhor achou uma sala de aula de universidade com 18 alunos? A maioria que conheço tem de 40 a 60. Pois é. Ainda acredito que para ser Presidente não se precisa cursar uma universidade. Mas para fazer planos desses deveria pelo menos olhar uma universidade funcionando.

Nós seguimos pensando que a melhor solução para tudo isso é caminhar na direção do socialismo, olhando com atenção a realidade. O Sr. Que enxerga o mundo cor de rosa com universidades com salas de 2 alunos, segue feliz com o capitalismo. Aos trabalhadores caberá a ultima palavra.





40 anos do assassinato de Martin Luther King – Começa a revolução de 1968

6 04 2008

1968. Uma revolução vai varrer o mundo de pólo a pólo, do norte ao oeste. Na França uma greve geral questiona o governo De Gaulle e somente o fato do Partido Comunista ter recusado-se a centralizar o movimento e derrubar o governo impediu o proletariado de tomar o poder. Mas, tanto na França como no restante do mundo, o que a burguesia quer falar é sempre da juventude. No Brasil, é o ano das greves dos metalúrgicos de Osasco mas o que passa a história é a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro.

Na Tchecoslováquia uma revolução derruba a direção do Partido Comunista e coloca um novo comitê central que propõe o socialismo com liberdade. Os privilégios odiados da burocracia são questionados. A revolução se espalha pelo mundo. Nos EUA o movimento negro incendeia o país, enquanto que no mundo inteiro a juventude questiona as reformas estudantis e a guerra do Vietnã. As tropas da burocracia soviética invadem a Tchecoslováquia, os estudantes são massacrados na Universidade do Mexico, a greve com ocupação de fábricas é sufocada em Osasco. O que a burguesia divulga disso tudo?

Ah, os lideres românticos estudantis, “vermelhos” não tão vermelhos assim, os que colocam “a imaginação no poder”, os que procuram meios e formas de substituir o proletariado pelas novas vanguarda (e seus sucessores de hoje que dizem que mudaram as formas de produção, que não existe mais o proletariado). Todos esses são vangloriados e o proletariado, de preferência, é esquecido, nunca existiu e se Martin Luther King virou feriado, é bom esquecer o lado que o liga a revolução, o lado em que ele procura construir uma Coalizão do povo pobre, o lado de apoiador das greves e de combatente contra a greve do Vietnã.

É preciso lembrar: King nunca foi um comunista. Ele declarou um dia:

O comunismo existe hoje por que o cristianismo não está sendo suficientemente cristão.

Sim, mas King era muito mais que os Obama ou as Condolezza de hoje e não é a toa que as agencias de noticia destacam e o Estado de São Paulo explica:

A maior parte dos americanos vê o reverendo King como o pregador do discurso ‘Eu Tenho um Sonho’ no memorial Lincoln Center, em Washington. Mas o homem que fez sua última viagem a Memphis em 1968 se tornou um radical, segundo estudiosos e ativistas. King apostou seu legado numa cruzada final revolucionária, que alarmou seus conselheiros mais próximos. Segundo a CNN, alguns estavam preocupados com sua instabilidade emocional.

O reverendo chamou essa cruzada da ‘Campanha das Pessoas Pobres’. Ele planejava marchar em Washington com uma multidão de pobres para um manifesto que visava paralisar a capital americana. O objetivo de campanha era forçar o governo federal a parar o financiamento da guerra do Vietnã e destinar esse dinheiro para o combate à pobreza. Em seu último discurso à Conferência Cristã do Sul, King teria dito que o objetivo do movimento era de “reestruturar toda a sociedade americana”. Ele teria ainda defendido a nacionalização de algumas indústrias e chamado a audiência a “questionar a economia capitalista”.

A radicalização do discurso do reverendo nos últimos anos de sua vida causou controvérsias com outros ativistas pelos direitos civis e fez com que King perdesse um de seus mais importantes interlocutores: o presidente Lyndon Johnson. No dia 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de sua morte, ele proferiu um discurso contra a guerra do Vietnã de muita repercussão. “Johnson ficou furioso”, conta Roger Wilkins, um oficial destacado pelo Departamento de Justiça como ligação entre o ativista e o governo americano.

Nos anos 1960, o FBI definia King como “o líder negro mais perigoso e eficaz do país”. Em julho de 1963, o então ministro da Justiça Robert Kennedy autorizou o FBI a espionar King. Microfones chegaram a ser instalados na casa dele com o objetivo de comprovar ligações com o partido comunista, o que nunca foi provado.

Este artigo esclarece muita coisa. Primeiro que King, como ele mesmo declarava nunca foi comunista. Depois, que ele tinha ligações – como explicou Hylary Clinton outro dia – com o Presidente (democrata) Johnson, sucessor de Kennedy (após seu assassinato). E que a burguesia, que nunca foi tonta, mandou espionar King (ordem dada pelo irmão do Presidente Jonh Kennedy, Robbert). Como se vê, a burguesia conversava com King e procurava mante-lo em redea curta mas a força do movimento que se radicalizava no ano de 1967 e levaria a explosão de 68 levava King a ir muito mais a esquerda do que ele pensava inicialmente.

O assassino de King, assim como o do Presidente Kennedy foi achado rapidamente. Mas se mataram Lee Osvald rapidamente (o “assassino” de Kennedy) esqueceram de matar o pretenso assassino de King e ele passou os 10 anos seguintes a sua “confissão” negando a confissão que fizera.

O assassinato de King fez o pais pegar fogo (literalmente) de norte a sul, com a revolta negra e fez com que o partido dos Panteras Negras crescesse imensamente (até ser destruido pelo FBI ajudado pela Mafia).

O resultado dessa revolta foi a conquista de várias leis de direitos civis de um lado e, de outro lado, a derrota dos EUA no Vietnã alguns anos depois. E a política da burguesia com relação aos negros mudou. Incentivado principalmente pela Fundação Ford surge a política de “cotas”, da “discriminação positiva”, visando a criação de uma elite negra que possa “controlar” os negros e deixa-los “no seu lugar”.

Hoje, o político que “aparece” como o herdeiro de King é justamente Obama. A esse respeito encontramos uma análise muito lúcida de um articulista da Folha de São Paulo:

Negro e branco, brilhante e flexível, Obama revitaliza King

Gilles Lapouge

Barack Obama tinha 6 anos quando Martin Luther King foi assassinado em Memphis. Desde aquele 4 de abril de 1968, a história mundial tornou-se tão efervescente que esquecemos a face dolorosa dos EUA. A candidatura de Obama é um convite a nos lembrarmos dela. No entanto, se o eloqüente Obama é um herdeiro da epopéia de King, ele o é de maneira longínqua, imprecisa.

King, pastor na Geórgia, foi o representante exemplar dos descendentes de escravos africanos que viviam no sul, repelidos e desprezados pela maioria dos brancos. Obama vem de outra parte. Ou melhor, vem de todos os lugares ao mesmo tempo – e essa é a sua força. Ele é negro e branco. Nasceu no Havaí, de pai queniano e mãe branca de alta linhagem: entre seus ancestrais está Jefferson Davies, presidente dos Estados Confederados da América. Muito jovem, retornou ao Quênia. Estudou em uma escola muçulmana na Indonésia. Fez seus estudos superiores nos EUA. Tornou-se cristão e participou de uma igreja negra de Chicago. Nada disso lembra a história de King. Lembra mais a de um imigrante do que a de um negro americano.

Há outra diferença. King não se inscrevia no jogo normal dos EUA e de suas instituições. Ele não conduziu uma ação política. Era um pastor que a miséria e a injustiça vieram interpelar. Já Obama é um homem político. Seguiu todos os currículos. Sabe das dificuldades. Conhece todas as sutilezas. Assim, o combate que empreende não é exatamente o mesmo que o de King. É por isso que evitou tão ferozmente apresentar-se como o recuperador da bandeira de King.

Sim, Obama o evitou. Afinal o “reverendo de Obama” representa bem melhor o combate do povo negro dos EUA pela sua libertação, o combate em que King chegou um dia a propor nacionalizações e a questionar o capitalismo, o combate que um dia produziu o partido dos Panteras negras (retirado do artigo citado acima):

Em 2003, Jeremiah, que foi uma espécie de guia espiritual de Obama, clamou: “Em vez de dizer ‘Que Deus abençoe os EUA’, é preciso dizer: ‘Que Deus amaldiçoe os EUA’, que tratam como subumanos alguns de seus cidadãos.” Pior: após os atentados de 11 de setembro de 2001, Jeremiah ousou dizer: “Surpreende-me que as pessoas se espantem de que tudo o que os EUA fizeram no estrangeiro seja jogado hoje em sua cara.”

Sim, isto tudo é muito distante do “homem politico” que é Obama. Mas Obama por mais que queira não pode enterrar de novo King e ele é obrigado a se pronunciar. Afinal de contas fazem 40 anos que King foi assassinado e ele Obama precisa de novo discursar, no seu já conhecido estilo de “estamos todos juntos” (para os brasileiros, isto é muito conhecido. Quanto já não disseram que precisamos estar todos juntos, quantos já não pediram que não me deixem só? Todos, invariavlemente, se colocaram contra os trabalhadores e contra os pobres, mesmo apelando pateticamente para estes) – Perdoem a citação longa, mas ela é necessária para entender a torção que Obama é obrigado a fazer para distorcer a luta de King em apoio aos lixeiros em greve, a sua luta contra a guerra do Vietnã em uma “luta por todos os EUA”:

Mas também acredito que valha a pena refletir sobre o que King estava fazendo em Memphis quando ele saiu por um momento à varanda, antes de deixar o motel para jantar.

Sua missão lá era apoiar os lixeiros da sua cidade em sua greve. Eram trabalhadores que serviam a cidade há anos sem se queixar, recolhendo o lixo dos outros por baixos salários e ainda menos respeito. Os transeuntes os chamavam de “urubus andantes” e, devido à segregação que ainda existia no sul, eles tinham de usar bebedouros e banheiros separados.

Mas em 1968 esses trabalhadores decidiram que já chegava, e mais de mil deles entraram em greve. Suas demandas eram modestas: melhores salários, mais benefícios, e o reconhecimento de seu direito de sindicalização…

Depois de descrever a luta de King, Obama começa a explicar o seu “entendimento” dessa luta:

Foi essa a batalha que levou King a Memphis. Uma luta pela justiça econômica, pelas oportunidades de que pessoas de todas as raças e condições deveriam desfrutar. Porque King compreendia que a luta pela justiça econômica e a luta pela justiça racial eram na verdade a mesma luta e parte de uma luta ainda maior, “pela liberdade, pela dignidade e pela humanidade”. Enquanto houvesse norte-americanos aprisionados na pobreza, enquanto lhes fossem negados os salários, benefícios e tratamento justo que mereciam enquanto as oportunidades existissem apenas para alguns e não para todos-, o sonho de que ele falou continuaria fora de alcance.

Na véspera de sua morte, King pregou um sermão em Memphis sobre aquilo que o movimento a que a cidade estava assistindo significava para ele e para o país. E em tons que se provariam sobrenaturalmente proféticos, King disse que, a despeito das ameaças que havia recebido, não temia homem algum, porque havia estado lá no momento em que Birmingham despertou a consciência do país. E havia estado lá com os estudantes quando estes se ergueram pela liberdade ao ocupar lugares reservados a brancos nos restaurantes. E estivera em Memphis em um momento em que estava escuro o bastante para ver as estrelas, e para ver a comunidade unida em torno de um propósito comum. King havia galgado a montanha. Vira a Terra Prometida. E embora soubesse na medula dos ossos que não chegaria a ela conosco, estava certo que chegaríamos lá.

E depois de ter explicado o seu “entendimento” de King, Obama vai explicar a sua propia opinião sobre o mundo, o mundo no qual não interessa se sejamos pobres ou ricos, trabalhadores ou senadores, todos somos “iguais”:

Ele o sabia porque havia percebido que os norte-americanos têm “a capacidade”, como disse naquela noite, de “projetar o eu no tu”. De reconhecer que, não importa a cor da pele, não importa que fé professemos, não importa quanto dinheiro tenhamos, não importa que sejamos lixeiros ou senadores dos Estados Unidos, todos temos interesses mútuos, todos devemos cuidar de nossos irmãos, de nossas irmãos, e “ou nos ergueremos juntos ou cairemos juntos”.

E assim, depois de sermos todos “iguais nesta noite”, Obama critica a revolta dos negros e elogia tanto Robert Kennedy (lembram, aquele mesmo que mandou o FBI espionar King) e Coreta King (mulher de Luther King) por pregarem a paz social. Mas Obama não seria Obama se ficasse ai. Ele relembra que a injustiça existe até hoje e que é necessário a “unidade” de todos, da burguesia e do proletariado na grande nação americana para que possamos “viver em paz”.

E quanto ele foi morto no dia seguinte, a alma de nosso país sofreu uma ferida da qual ainda não se curou. E em poucos lugares essa dor foi mais pronunciada do que em Indianápolis, onde Robert Kennedy estava fazendo campanha. E coube a ele informar a um parque repleto de militantes que King havia sido morto. À medida que o choque se transformava em raiva, Kennedy lembrava aos espectadores da compaixão de King, de seu amor. E, em uma noite na qual cidades de todo o país foram iluminadas pelas labaredas da violência, em Indianápolis houve silêncio.

Nos dias que seguiram à morte de King, sua mulher, Coretta Scott King, preferiu apontar para as estrelas. Ela assumiu a causa do marido e liderou uma marcha em Memphis. Mas embora os lixeiros da cidade terminassem por conquistar seu contrato sindical, a luta pela justiça econômica continua a ser uma porção inacabada do legado de King. Porque o sonho continua fora do alcance para número excessivo de norte-americanos. Ainda esta manhã, surgiu o anúncio de que o desemprego do país está mais alto agora do que esteve em muitos anos. E em toda a nação, famílias enfrentam preços em alta, salários estagnados e o terrível fardo de perderem suas casas.

Parte do problema é que, por tempo demais, nós vivemos com uma política mesquinha demais para a dimensão dos desafios que precisamos encarar. Trata-se de algo sobre o que falei em discurso que fiz algumas semanas atrás em Filadélfia. E o que eu disse foi que em lugar de termos uma política que faça jus ao apelo de King pela união, temos uma política que usou a raça para nos separar, ainda que isso apenas alimente as forças da divisão e da dissonância, e nos impeça de resolver nossos problemas.

É por isso que a grande necessidade desta hora é mais ou menos a mesma que existia quando o Dr. King pronunciou seu sermão em Memphis. Temos de reconhecer que, embora tenhamos todos passados diferentes, compartilhamos das mesmas esperanças para o futuro que possamos encontrar um trabalho que pague salário decente, que seja possível encontrar serviços de saúde acessíveis quando adoecemos, que possamos um dia enviar nossos filhos à universidade, e que, depois de uma vida de trabalho árduo, nos seja possível desfrutar de uma aposentadoria segura. Trata-se de esperanças comuns, sonhos modestos. E eles ocupam posição central na luta pela liberdade, dignidade e humanidade que King começou e que nos cabe concluir.

Sonhos modestos. Sonhos modestos que só podem ser cumpridos se o capitalismo for derrotado e o socialismo for instalado. Pois a imensa riqueza dos EUA é desperdiçada na ciranda financeira e produz em quantidades iguais a miséria, a desigualdade e os …ricos.

Estamos sendo severos com Obama? Sim, dirão alguns. Mas ouçamos a voz sensata da burguesia americana, a voz sensata daquela que é um dos pilares do governo Bush, aquela que é produto das “cotas” raciais que a guindou de filha de trabalhador a uma das mulheres mais poderosas do Planeta. Deixamos Condolezza Rice falar:

Citada eventualmente como possível candidata a vice-presidente na chapa republicana, a secretária norte-americana de Estado, Condoleezza Rice, elogiou na sexta-feira o pré-candidato democrata Barack Obama por seu recente discurso sobre a questão racial.

“Há um paradoxo neste país e uma contradição neste país, e ainda não o resolvemos”, disse ela numa detalhada resposta sobre Obama e a questão racial, a propósito do 40o aniversário, na semana que vem, do assassinato do líder negro Martin Luther King Jr.


Rice contou que seu pai, uma avó e uma bisavó sofreram “terríveis humilhações” em suas vidas no sul na época da segregação, e mesmo assim sempre amaram os EUA.

Sim, americanos negros e brancos fundaram o pais juntos. Uns, os negros, como escravos nas plantações e casas dos “pais” da patria norte-americana. Outros como senhores de escravos e camponeses livres. Uma pequena diferença entre uns e outros que Condolezza (e Obama também) distorcem. Afinal, eles são “homens e mulheres politicos” que devem dizer aquilo que deve ser dito para que a raiva da população negra contra eles não se volte. Devem atuar como legitimos guardiães da burguesia, seja ela branca ou negra que hoje explora o proletariado branco e negro e joga os dois na mesma miséria e mesma exploração (não esquecendo nunca que o racismo continua e os negros continuam mais pobres que os brancos, pois afinal é assim que dividimos os trabalhadores e conseguimos com isso que uns briguem com os outros enquanto que a burguesia segue o seu caminho de exploração).

Sempre quiseram a mesma coisa, Srª Rice? Os donos de escravos e os escravos? E a luta pelos direitos civis? E a guerra civil? Onde ficaram estes tempos? Para Condolezza e para Obama, melhor ficariam bem enterrados em livros de história e não fossem lembrados no dia a dia por quqalquer um que veja a miséria e a devastação que causaram um furacão Katrina, para qualquer um que veja que os negros sofrem muito mais que os brancos nessa luta diaria para sobreviver.

King morreu porque quiz fazer o seu sonho nesta terra. Ele não era um comunista, não era um revolucionário, mas era muito mais que todos esses que são “traidores de sua propria raça”.

Nós, marxistas, sabemos o que é necessário .”Proletários do mundo, uni-vos”. Esta é bandeira da I Internacional, a bandeira sobre a qual continuamos a combater e que brancos e negros, trabalhadores desse mundo, sofredores desse mundo, se unirão para derrubar a burguesia e erguer na face da terra o sonho de King e de todos que combateram as injustiças sem se render aos poderosos do mundo.








%d blogueiros gostam disto: